sábado, 28 de março de 2015

Saudade triste

O que sei é o sentimento de sua falta
É-me tão saudosa, mas não a querer senti-la
Tão presente, mas não a querer afastá-la
Tão triste, que os dias precisam passar
Para que eu consiga escrever-lhe,
Como agora

Fujo de sentir-te muito próximo
Tento não pensar, não sentir
Não adianta fugir, constato
Acabo voltando a te enfrentar
Sua imagem sã, que bom
A doente, que ruim

Onde você está?
Não sei pedir por quem já se foi...
Só pra que estejas bem
Tanta saudade sinto
Tanta falta me fazes
Como posso pedir, voltes?

Tento esquecer aquele dia
Tento não lembrar o teu aniversário
É que a lembrança me é tão triste
Esses dias passam, não esqueço porém
Queria é te ver
Tua bengala, teu chapéu

Tua vontade de tudo...

terça-feira, 24 de março de 2015

Vai pra CUBA!*

http://www.andremansur.com
*Tb. pub. no jornal Gazeta de Alagoas e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL, de 18/03/2015

Vai pra Cuba!, esgoelava-se, imaginando estar a agredir quem, como eu, entende que os governos Lula e Dilma, com todas as dificuldades e equívocos em que incorreram, são os melhores que este país já foi capaz de eleger e construir. Dados matemáticos provam irrefutavelmente o que afirmo, para ficar só neles. Abstenho-me de citá-los. Estão na internet, para quem quiser conhecê-los.

Uma vez um alagoano, vendo-me a tecer elogios a Cuba em uma rede social, provavelmente ao sucesso de suas políticas educacional e de saúde, indagou-me: André, você já foi a Cuba?, querendo com sua pergunta insinuar que eu só a defendia porque não a conhecia. Claro que para quem, como eu, conhecia um tanto da história e da realidade da ilha (ou das ilhas, como mais correto), mesmo sem lá ter ido, sua pergunta capciosa não encontrava guarida ao fim desejado. Mas ele podia fazê-lo, afinal estivera lá.

Noutra vez, assisti numa rede social alguém destilar lamentações do quão a pobre Cuba estava decadente, naturalmente face ao governo socialista que lá se implantara. Pobre Cuba, lamentava, com sua sensibilidade forjada no preconceito e, por isto mesmo, na ignorância acerca da história daquele povo.

Tratando-se de velho desejo irrefreável, fui à Cuba. E confesso que me surpreendi lembrando-me de suas observações, notadamente porque me era difícil compreender como alguém ligado às artes (ambos supostamente eram) poderia ter uma visão tão preconceituosa, limitada e canhestra acerca da ilha caribenha; a gente sempre tem a ideia (falsa, entretanto) de que um sujeito assim, por em princípio ter a sensibilidade mais aguçada, escaparia do preconceito ideológico que lhe fora, como aos brasileiros em geral, incutido. Ledo engano.

Então, fui. E constatei que Cuba era ainda muito mais impressionante, admirável, bela e culta do que imaginara. Se antes já admirava o cubano, passei a fazê-lo com a razão escorada no testemunho diariamente observado e constatado em cada esquina de qualquer aglomerado urbano de suas muitas cidades.


Aprendi muito. Mas por ora finalizo dizendo que uma das maiores lições que aprendi é que uma nação é mesmo feita de seu povo. Cuba é alegria, generosidade, sacrifício, coragem, beleza, luta, orgulho, autoestima elevada, educação, cultura, amor. E o povo cubano é o maior responsável por Cuba ser o que é. Lembrei-me das vaias e ataques sofridas por seus médicos ao desembarcarem em meu país. E intimamente aplaudi-os novamente, agora ainda mais envergonhado...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Clareia

http://pt.slideshare.net/
Agora já não via mais nada, senão seu ombro desnudando-se, a pele alva descobrindo-se da fina alça do maiô que escorregara até quase a linha que faz limite com o antebraço. Sentiu o coração pulsar sôfrego e arrítmico, e a caixa torácica mover-se freneticamente em função das pancadas desferidas pelo músculo desesperado. Só conseguiu levar a mão ao peito, como pudesse com isto acalmá-lo, contê-lo. No mais, seus olhos e alma estavam grudados na cena e na tentativa instintiva, muda e telepática de soerguer o fino fio de tecido. Por que ele disfarçadamente não o faz, não a recompõe, conseguiu perguntar-se no meio da confusão emocional em que estava agora imerso. Tinha vontade mesmo de gritar para que o fizesse. Pudesse, avançaria em sua direção e o repeleria de perto de sua amada. Viu quando a mão direita do sujeito desceu de seu ombro esquerdo, lenta e sedutoramente, e passou por cima da alça, descansando durante alguns segundos logo abaixo dela, para em seguida fazer o movimento de volta, deixando-a onde já estava, novamente sem a mínima disposição de recompô-la. Ele não a suspendeu! Poderia tê-lo feito, o desavergonhado... Fez de propósito!, concluía, contendo-se para manter-se passivo e quieto em sua poltrona. Até que finalmente ultrapassado o limite de sua própria capacidade de suportar aquilo. A angústia que vinha sentindo até ali, o ciúme, a dor..., de nada mais lembrava (ou queria lembrar) e o que faziam ali ele e sua amada. O “pas-de-deux” chegara ao fim, mas para ele, mesmo do epílogo se tratasse, beiraria o insuportável. Olhou para a máquina fotográfica, conteve-se para não arremessá-la como fosse ela a merecer o castigo que seu coração mandava fosse impingido a algo ou a alguém, de modo a desarrochá-lo do aperto que sentia, e partiu.
É preciso explicar que não era recente sua dificuldade de lidar com o balé de sua amada, que já o dançava, diga-se, desde antes de se conhecerem. Muito menos que a tempestade se iniciara naquela tarde-noite de ensaio geral cujos momentos derradeiros acabei de narrar. E tampouco o problema fosse o balé em si. O problema era mesmo o “pas-de-deux”. Quando soube que ela iria dançá-lo, aí sim passou-lhe a ser um tormento; para ela, a luta pela mantença de um prazer cujo preço estava se tornando muito caro. Balé passara, então, a ser sinônimo de desavença, crises de ciúme, falta de paz, desgaste do amor. Ao menos não houvesse o “pas-de-deux”...


Na verdade, não suportava a ideia de outro homem a tocá-la, a envolvê-la nos braços enquanto deslizassem sobre um tablado ao som invariavelmente romântico da música escolhida para embalá-los, via de regra sedutora e sensual. Muito menos que isso se passasse durante vários meses, dezenas de semanas, inúmeros dias, incontáveis horas, inimagináveis eternos minutos de ensaio, contabilizava. “Não! Definitivamente, não aguento!”, dizia num misto de revolta e sofrimento à bailarina tão amada e ao mesmo tempo de coração tão apertado, talvez dividido, em mais uma das cada vez mais frequentes discussões que travavam a respeito.
Antes, antes mesmo do final trágico involuntariamente patrocinado pela indisciplinada alça, já houvera percebido que a peça inferior do maiô de sua amada — pois cavada que surpreendentemente o era, e à vista porque imediatamente abaixo do prato da fantasia de sua bailarina — deixava à mostra boa parte de suas pequenas e firmes nádegas adolescentes — certamente mais brancas do que os ombros —, enevoadas, felizmente embora, pela meia, cor da pele, a com elas confundirem-se, virgens à visão mundana que eram.
E aí já sofrera por demais, a quase sentir-se desfalecer para não ver o quadro que até então era a razão de sua aflição, a dor que só um rapazola — que ainda não conseguiu domar os instintos de sua espécie e sexo — pode sentir. Sofreu! Ah, sofreu! Penou enormidade quando olhou para as miseravelmente encobertas nádegas seminuas da amada, agora inaceitável e certamente sujeita aos olhos gulosos da plateia masculina (imaginava, sob o compasso violento do coração inconformado), especialmente dos conhecidos e desconhecidos adolescentes que, como ele, assistiam ao espetáculo.
Faltou-lhe ar, finalmente — e aí chegamos lá ao início dessa história, no que para ele se traduziu o clímax mesmo da tragédia —, ao perceber a fina alça de suas vestes libertando-se e indo repousar bem longe do ombro que a amparava, como a libidinosamente permitir que seu viçoso seio juvenil, tal qual flor que desabrocha, pudesse libertar-se das tênues amarras que o continham e mantinham sob virginal segredo, e viesse, ele também — talvez ambos, fosse-lhe a sorte bruxa cruel e desalmada —, às luzes que a acompanhava enquanto deslizava solene, elegante e graciosamente sobre o cúmplice palco que a tudo permitia. Não bastasse o que já lhe dilacerava a alma, aquela música a penetrar em seus ouvidos, em sua pele, seus ossos, disputando em si mesmo espaço físico e espiritual com a dor que o ciúme lhe provocava... Clareia... A luz do dia a contemplar teu corpo, Sedento, louco de prazer e desejos ardentes...
Foi-se! Sem mais conseguir suportar a dor que se lhe assemelhava a lança cruel que estivesse a traspassar seu peito e castigar sua alma, largou a máquina fotográfica trazida (olha, só) para registrar os melhores momentos da dona de seu coração, e saiu do teatro sem olhar para trás, mas torcendo, não vou mentir, houvesse sido por ela visto.
É que de um lado havia o ciúme e a dor por este provocada; de outro a insuportável ideia de perdê-la. Vejam só o dilema de nosso apaixonado herói!... Quer dizer: ia-se, mas queria ficar; desejava não mais vê-la, nunca mais, mas não aguentava imaginar a vida sem ela.
Assim, nada mais fazia do que imolar-se com esses sentimentos que teimavam em perturbá-lo, como só os apaixonados enciumados sabem fazê-lo. Sofria quando sabia, e fazia questão de lembrar, houve as aulas, os ensaios que naturalmente antecediam (e antecederam) aquele dia de ensaio geral, e sofria quando então imaginava os dois a dançarem, repetidas vezes, entre erros e acertos, o que somente era dor menos lancinante à míngua do testemunho; o seu. Pouco importava que o parceiro da dança não apresentasse comportamento minimamente másculo; era do sexo masculino, a tocá-la com o romantismo que a música teimava em imprimir, o que bastava.
Você já deve ter percebido que nosso amigo ama. Ama e sofre, como esta história já é prenhe de afirmar a você, leitora e leitor. Não! Não o julgue, partindo sofregamente em defesa da pobre bailarina — que nada mais fazia, reconhece-se, do que o seu ofício, ainda que gratuito, sua arte, sua técnica. Não o faça antes, ao menos, de pelo menos sopesar o tamanho do amor que lhe devotava nosso sofrido amigo. E sem olvidar que a exposição do corpo seminu da mulher-menina que amava, os carinhos que a dança e a música impeliam — talvez obrigassem —, fossem nela realizados por seu par; tudo isto lhe era difícil compreender e aceitar. Era um jovem homem, com sentimentos e emoções masculinas ainda selvagens, tais quais aquelas.
Encontrou-o sentado sobre pequena e baixa muralha situada próxima à casa de espetáculo, de onde se via toda a cidade, mas não vou escamotear: diante de si só as cenas que acabei de tentar narrar-lhes com a maior precisão e detalhes possíveis.
— Oi... Onde você estava? Procurei tanto... Quando acabou o ensaio não o vi mais... Gostou? — perguntou-lhe, desconfiada e em parte realmente interessada em sua opinião e aonde ele havia estado; noutra, tentando imprimir um sorriso que pudesse disfarçar a percepção evidente, para si própria em primeiro lugar, que algo não estava bem com seu amado e, principalmente(!), que ela era a causa.
Não sabia se ficava feliz ou com mais raiva por sua voz já tão perto, e por sabê-la ali com ele, tendo vindo atrás dele, havendo procurado por ele tão logo acabou a cena. Sabia que fora praticamente de imediato, calculou, porque pouco mais de cinco minutos haviam passado desde então. Naqueles poucos segundos em que ouviu sua voz pôde perceber a respiração dela ainda ofegante, seu cheiro doce de suor misturado com o da fantasia (maldita fantasia!), sua saudade... Mas sua vinda não se mostrara suficiente para extirpar a dor, a vontade de não estar vivendo aquilo, de nada daquilo ter acontecido. Sentia raiva dela, sim. Muita raiva, mesmo. E não sabia nitidamente — porque ainda extremamente envolvido com a ira provocada pelo ciúme —, mas certamente, senão feliz — muito longe disso, escritor! —, estava mais confortado pela demonstração de importância que percebera dela para com ele e, principalmente, com o amor que reciprocamente sabia sentiam.
Sim, nesse ponto me cabe não deixar dúvidas: ela não o amava menos. Na verdade, era completamente apaixonada por ele. Em suma: ele aparentava mais, aqui, porque estava a sofrer por ela (e por eles), e a história foca o drama tomado sob esse foco. Ela aparentava menos, porque naquela tragédia o seu papel, involuntário — e talvez injusto, vá lá —, era de algoz; o dele, de vítima.
— O que houve, amor? Porque não me responde? Sequer me olha... Fala alguma coisa...
Só o silêncio como resposta. O olhar para frente, sentado sobre o muro, as mãos ao lado do corpo, amparando-se na pedra fria, os pés cruzados pendentes sobre o ar. Percebia, de soslaio, seu olhar preocupado. A vontade dela era de abraçá-lo, beijá-lo, reconfortar-se em seu ombro e aguardar. Mas tinha medo de ser rejeitada fizesse algum gesto de carinho.
Após longa espera: — Vai ficar assim, mudo, como se nem notasse minha presença?
— Como você quer que eu esteja? Como posso estar feliz se minha namorada, a garota que amo, acaba de viver um clima de amor e sedução, e o sujeito, não bastasse, é um aproveitador? — respondeu, enfim, com o exagero próprio dos tomados pelo ciúme.
— Aproveitador? Como assim?
— Não percebeu que ele nem se dignou a recompor a alça de sua roupa que caíra?
— É... Percebi... Mas acho que ele nem percebeu, amor... Devia estar tão envolvido pela dança... Não por mim, garanto.
Novo silêncio.
— Precisava ser a roupa mais devassada?
— Tem razão... A costureira da escola errou... E tinha que fazê-lo justo com a minha! Arre! — explicou, quase revoltada com essa, digamos, falta de sorte.
Sabia que em poucos minutos seus pais estariam a chamá-los para se irem a casa. Tentava resolver antes, para não se separarem com esse clima ruim. Amava-o tanto, pensava. Entendia-o, mas também se sabia não fazendo nada indigno. Compreendia, porém, a dor do ciúme que sentia, ainda que contra si e contra sua segunda paixão — se é, caros leitores, que posso traduzir assim, hierarquicamente, seus sentimentos, idênticos por serem ambos paixão, mas tão diversos quanto ao quê e a quem lhes eram devotados, que, força desta distinção inevitável, tornavam-se também distintos.
Passados alguns instantes — a si pareciam intermináveis —, pousou sua delicada mão (estava fria) sobre a dele, que não a tirou. Instantes depois, pensou ter ouvido a voz de seus pais ao longe, chamando-a. Ouvira, mesmo, ao percebê-la mais perto. Lamentou-se, pra si mesma. Levantaram-se. Tratou de segurar a mão dele, que por força do gesto de se levantarem havia se soltado da sua. A mão dela estava agora aquecida — e não tenho a menor dúvida, caros leitor e leitora, a quentura se devia à paixão que ali se via transmitida, de um para o outro ser, num ir e vir frenético, inversamente proporcional aos passos lentos que lhes imprimia o movimento indesejado de voltarem à realidade — que não era a deles —, paixão que aquece o coração, e principalmente, ali, acalentava a mais fina dor.
Explicações dadas aos pais — desculpas, na verdade, pois sem qualquer apego ao que de fato havia acontecido —, que, por sua vez, pareciam entender que houvera ali uma pequena tempestade, a despeito da noite quente do nordeste brasileiro naquele verão de meados dos anos 1980, entraram no carro, ela sem desgrudar da mão dele, ele sem esforçar-se para dela rebelar-se. À exceção de um comentário ou outro de uma mãe orgulhosa do papel desempenhado por sua doce bailarina, tão jovem ainda, respondidos com heroico esforço de parecer atenciosa e alegre, e de um olhar de um pai com contida curiosidade e ponta de preocupação pelo espelho retrovisor, seguiram viagem. Ao fim, percebia-se até se tendo distraído pelo caminho, certamente pelo calor que vinha daquela mão que o compreendia e ao seu amor doído.
Chegaram primeiro ao seu destino. Despedidas realizadas, preparava-se para deixar o carro quando sentiu o aperto mais forte em sua mão, o abraço delicado em seu rosto, e aquela voz a dizer-lhe, num sussurro, com os lábios bem próximos ao seu ouvido: Vai dar tudo certo. Amo-te. Obrigada. Ele desceu.

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Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS, Caderno SABER, ed. de 04/01/2014, domingo

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Natal, Cuba!


O tempo ainda se esforçava para tornar-se quente naquele princípio de verão em Colônia, mas quedava-se derrotado ao chegar da noite, principalmente “naquela noite”, que já nascera sob chuva, fortes trovões e sucessivos relâmpagos a iluminar, juntamente com as lamparinas espalhadas por suas ruelas, a aprazível cidadezinha a oeste de Montevidéu.

Foi assim que saíram a perambular pelas ruas de pedras do séc. XVIII, guarda-chuva preventivamente à mão ― que contudo mostrou-se objeto descartável, ali ― e o olhar contemplativo embriagado pelo atmosfera bucólica.

A rua era sintomaticamente chamada “das Flores”, ou Calle de las flores, e foi nela que em certo momento ingressaram, atraídos por pequeno restaurante ali instalado, com suas mesinhas e cadeiras que a invadiam.

Ao aproximarem-se foram efusiva e alegremente abordados por um homem dos seus trinta e poucos, quarenta anos, magro, alto, cabeça precocemente careca na parte superior, vestido com simplicidade, um pano na mão a denotar estava limpando as mesas das folhas e pétalas de flores que a natureza descartava.

“Olá, vocês souberam da novidade? São brasileiros?”, perguntou, num espanhol impregnado do sotaque e peculiaridades daquela região. “Hein? Sim, somos. Não. O que houve?”, disseram-lhe, num portunhol muito do imprestável e meio que de supetão, tentando assegurar-se de ter entendido as perguntas. “Caiu o bloqueio!”, exclamou, visivelmente tomado pela emoção. “Como assim? Que bloqueio?”, perguntaram tentando adivinhar. “O bloqueio econômico dos EUA à Cuba caiu!”, disse-nos quase em voz alta, sorriso estampado, e com as mãos e braços meio balançando, como se com isto pudesse fazê-los entender melhor. “Obama e Raúl Castro, com a intermediação do Papa Francisco, chegaram a acordo. É um momento histórico! Vencemos!” Ela não se conteve e deu um grito, mãos com punhos cerrados pra cima e lágrimas já deitando-se a escorrer. Ele, olhava pra um e pra outro meio embasbacado, a emoção já sentida e manifesta. Abraçaram-se. Não conseguiam conter a alegria. “Querem entrar pra comemorarmos? Ofereço um drinque!”, ofereceu emocionado. “Meu novo amigo, mas é claro que sim! Como não?”

Já mais tarde, no quarto de hotel e às vésperas do sono reconfortador que já se aproximava, deram graças aos céus por estarem naquele 17 de dezembro de 2014 na linda Colonia del Sacramento do belo, acolhedor e politizado Uruguay. Melhor do que isto, solamente en Cuba. Feliz Natal...

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*Tb pub no jornal Gazeta de Alagoas e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A rainha e o senhor Lula*

O reino era o da Dinamarca. Mas os plebeus não eram bem plebeus, senão turistas brasileiros de classe média, ou média-alta, que por lá se encontravam, mais precisamente em Copenhague.

Embora ensolarada, a manhã era fria, o que tornava indispensável o uso de agasalhos generosos. A guia, uma simpática senhora indiana de ar agradável, sorriso franco e farto, voz calma e doce — mas disciplinadora, quando necessário o silêncio e o cumprimento dos horários acordados —, vestia-se de modo simples, mas digno. Usava um vestido acinzentado, sandálias confortáveis de solado de borracha, e cachecol estampado de tons neutros. Cabelos grisalhos longos, fartos e lisos penteados para trás e presos num coque próximo à nuca. Sem joias ou brincos, senão um relógio e uma aliança prateada no anelar da mão esquerda.

Numa oportunidade, reportando-se à monarquia naquele país, e em tom de gracejo, aludiu ao fato de que lá, como no Brasil, eles pagam impostos para sustentar os governantes: no Brasil, os políticos; na Dinamarca, a realeza.

A alguns risos igualmente despretensiosos, ouviu-se de um deles: “Melhor sustentar a realeza!”. “Melhor os políticos, que foram escolhidos por nós!’, retrucou outro. A incipiente manifestação dissipou-se por ali mesmo, assim também qualquer outro tema com alguma conotação política.

Findo o passeio, alguns poucos estiveram com ela por bom tempo a conversar. Aí se depararam com uma mulher de singular cultura, viajada (já havia até morado no Brasil), extraordinariamente politizada e que, aposentada juntamente com seu marido, resolvera(m) ser guia turístico para completar o orçamento doméstico, dado o altíssimo custo de vida naquele país.

Desculpou-se por evitar falar em política com grupos de brasileiros, porque na sua maioria raivosamente contrários ao ex-presidente Lula. “Não compreendo... Um presidente com as qualidades do senhor Lula!...”, dizia com pouco acentuado sotaque português. “Há poucos políticos com tamanha grandeza. Olha, digo-lhes que a rainha somente conferiu a intimidade de receber em sua residência dois únicos políticos: Bill Clinton e o senhor Lula. Este, ainda candidato, procurou-a para aprender acerca das políticas voltadas para o povo dinamarquês. Admira-o. É um homem incrivelmente inteligente e de uma sensibilidade incomuns. Não à toa recebe títulos importantíssimos mundo a fora! No entanto, vossa classe média não gosta dele... Então, prefiro calar-me, pois não?”
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*Tb pub. no jornal Gazeta de Alagoas e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL