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domingo, 9 de agosto de 2020

A um certo senhor


Era uma vez um senhor que nunca, nunquinha, deixou faltar nada aos filhos. E uma das coisas que mais gostava nele é que não arrotava honestidade. Praticava a honestidade como quem escova os dentes. Não é preciso alardear que se escova os dentes. Arrotava tampouco conhecimento. Nem grandeza. Arrotar arroto, bem que quando mais jovem ele arrotava. Deu-me um péssimo exemplo. Depois ele parou. Simplesmente parou. Silenciosamente, sem alarde.

A sua família, por exemplo, era a família dele. Ponto. Que ao jeito dele amava. Não o via dizendo que a sua família era melhor que as outras. Que seus filhos eram mais inteligentes, corretos, ou outras qualidades. Qualidades que percebia ele enxergava, mas modestamente satisfazia-se com a ciência delas para si. Eu achava isto o máximo. Percebi logo cedo que eu era um fã da modéstia. Acho massa a modéstia. A modéstia é meio parente da honestidade. Você não precisa se dizer modesto. Até porque aí não haverá modéstia. E quando você é modesto ou honesto — interessante... —, você não exige nem arrota a honestidade ou a modéstia que faltaria nos outros. Você vê, avalia, põe de lado, e segue em frente. Falar em massa, adjetivo, e modéstia, substantivo, lembrei-me de Caetano falando de Gilberto Gil e de Milton Nascimento. Na live de seus 78 anos. Um gênio, mas tão modesto... Exaltou Gil, e sua família, e Milton, colocando-os num patamar musical superior a ele e à sua própria família. Modéstia elevada à enésima potência. Lindo demais, isto, acho. Gosto demais de gente assim. Nem preciso dizer que me soou verdadeiro, porque falsa modéstia se enxerga de longe.

Aquele senhor (voltando a ele) era tão modesto que algumas coisas dele só vim a “descobrir” depois que ele nos deixou. Sabia da sua sensibilidade e generosidade. Mas sabia meio por que sabia. Boa parte dos testemunhos vieram após seu falecimento, no velório, até.

Uma vez, já com a saúde debilitada — mas não ao ponto de que eu pudesse prever desfrutaria poucos anos mais dele —, foi homenageado por um dos hospitais em que servira. No caso dele o verbo era esse mesmo: servir. Eu percebi duas coisas, nesse dia/noite: uma, que ele tinha a exata noção da homenagem (nem mais, nem menos); outra, que ele estava orgulhoso de si e de sua trajetória como médico. Mas essa percepção deveu-se unicamente à minha atenção. Porque quando se tratava de exaltação, o que se sobressaía, nele, mesmo, era a modéstia. Como eu era o escrevedor e orador, fui eu que agradeci por ele a homenagem. E eu ali era puros amor e orgulho.

Eu dizia que esse senhor nunca, nunquinha, deixou faltar nada aos filhos. Até hoje me miro em sua prática. Se ele fazia, se ele dava, se ele proporcionava, se ele incentivava — e, importante, ela, sua esposa, apoiava —, tenho como parâmetro para quando preciso fazer, dar, proporcionar ou incentivar os meus. Claro que infelizmente nem de longe com a sabedoria dele.

Mas o fato é que, hoje, se tenho os filhos que tenho — filhos para amar como esse senhor amou aos seus — devo isto a ele (e a ela, que só está entre parênteses, vou explicar, porque hoje o dia é só o dos “dos pais”, e ela generosa e modestamente não vai se incomodar que a exaltação seja a ele).

Sim, não é mais preciso explicar que esse senhor é meu pai. Talvez estivesse explícito desde o início. E, preciso dizer a ele (na esperança que tive um tempo atrás de que, de onde ele está, leia, e me fez escrever): pai, sinto muitas saudades de você.

*http://www.santacasademaceio.com.br/2010/10/aos-79-anos-medico-antonio-eustaquio-e-reconhecido-por-seus-pares/


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O ano de 2016 (para mim)*



pataxocartoons.blogspot.com.br/

Tenho alguma dificuldade para achar 2016 um ano muito ruim. Claro que para o país foi terrível. Política e economicamente desastroso, embora a economia tenha assim sido em boa parte pela instabilidade política adrede preparada e levada a cabo pelos opositores ao governo deposto: mídia hegemônica partidária, parcela do judiciário e de membros do ministério público e da polícia federal, capital financeiro e industrial interno e externo, governos estrangeiros — EUA à frente —, políticos corruptos e descontentes, “legitimados” pelo apoio nas ruas de uma classe média em grande parte manipulada pela mesma mídia, ou que simplesmente saiu do armário onde se fechara envergonhada desde 1964, para fechar o ciclo. A presidenta legitimamente eleita, digna (e inocente) foi deposta por um golpe midiático-político-jurídico. Ali ficou claro que o Brasil permanecia sendo uma republiqueta de bananas. Todo o respeito internacional se esvaiu. Em nome do combate à corrupção, mas em verdade atendendo a interesses econômicos do capital internacional, uma caça seletiva a políticos e empresários se instalou, destruindo propositadamente nossas principais empresas e promovendo prejuízos irrecuperáveis à economia nacional.


Por outro lado, mas ainda nesse sentido, a morte de figuras exponenciais brasileiras e estrangeiras (Ferreira Gullar, Fidel Castro, Carlos Alberto Torres, Ivo Pitanguy, Guilherme Karan, Hector Babenco, Evaristo de Moraes Filho, Muhammad Ali, Cauby Peixoto, Tereza Rachel, Umberto Eco, David Bowie, Gustavo Bueno Martinez, entre tantos outros), as mortes de milhares de inocentes na guerra da Síria e em outras instaladas em centros de interesse do capital, apoiadas, quando não patrocinadas ou deflagradas pelo império estadunidense e seus companheiros na Europa, além dos atos de revanche praticados contra inocentes na Alemanha e na França, para ficar só nesses exemplos, tornaram o país e o mundo mais pobres, perigosos, intolerantes, fascistas, racistas, xenofóbicos e misóginos. O ódio está em cada esquina, às vezes dentro da própria casa do indivíduo.


Pessoalmente, sob o aspecto particular, mesmo, o ano de 2016 foi ruim principalmente porque a minha mãe sofreu um AVC, felizmente não hemorrágico. É um quadro horrível e imensamente triste de se ver. Naquele momento eu tive medo, muito medo, um medo espetacular de que ela viesse a falecer ou que a doença provocasse sequelas que a fizessem sofrer. Felizmente, estas, evidentes e lastimáveis, não promoveram a destruição e sofrimento temidos. Sim, a minha mãe tão querida hoje está numa cama em seu quarto — reformado, meio como quarto de hospital, para aguardá-la nessa nova fase de sua vida —, e assim deverá permanecer pelo tempo (longo, por suposto) que vier a ficar conosco, necessitando de ajuda de terceiros para realizar as mais triviais e básicas funções, negando-se até a sentar na cadeira de rodas. “É ruim, André”, diz. E não é uma cadeira ruim.

domingo, 25 de dezembro de 2016

O doce mistério do natal

Crônica
Por que o Natal deixa a gente meio mole? Molão, molengão, sacomé? Emotivo, generoso... Engraçado. Não, não deixa engraçado. Embora, vem de graça; então, pode ser. Mas quis dizer: engraçado como esse estado de espírito se manifesta no meio de tanto consumo. E por paradoxal que pareça, esse consumo também é, muitas vezes (acho), um reflexo desse mesmo estado. Há um prazer maior em presentear. Doação. Não é só a obediência a um costume comercial. Não é só Papai Noel. Não! Há algo maior. Maior do que nossa cultura capitalista tropical, do que as propagandas que nos empurram para comprar. Do que o bom velhinho. Até a crônica sai diferente. Molona, molengona. Aquela lerdeza que dá quando a gente tá em paz. Uma dormência... E fazer o bem? Vontade que dá! Procurar a paz, a boa convivência. Diferente de outras épocas do ano. O Natal é legal.

E agradecer? Caramba, é um tal de agradecer por tudo e a todos! ‘Brigado por isto, ‘brigado por aquilo. Abraço pra lá e pra cá. Beijo. Haja beijo. E este estado de graça acontece mesmo que não se reflita sobre o significado cristão da data. Quer dizer: parece até que o espírito divino resolve passar mais tempo entre nós, independente da nossa vontade ou consciência, e nos faz senti-lo mais forte, sem nos darmos conta de que é ele, ou por causa dele. E fica deixando a gente assim... melhor. É, numa palavra: melhor. Até quereria saber o porquê, se alguém viesse me dizer. Mas na verdade não me importa saber. Só sentir me basta. E sentindo, agir conforme.

E já que é assim, alguns agradecimentos a Deus. Por eu ter pais vivos e com saúde, e ser absolutamente amado por eles todos os dias. Por meus três filhos: a Mariana, o Andrezinho e a Nandinha — citados por ordem de nascimento, para não ficarem com ciúmes —, minha continuação, meus amores. Minha família toda, ‘brigado. ‘Brigado pelo amor de minha namorada. E por ela passar no concurso. Agradecimento antecipado, afinal, ela vai. ‘Brigado pelos meus amigos. Os de infância, nas pessoas do Ranulfo — amor fraterno sem medida, e recíproco, — e do Zé Carlos — o cabeça-dura mais fiel que conheci —; os ganhos na juventude, na pessoa do Marcelo (Malta) — um irmão —; os nascidos nas lutas diárias da advocacia, como o Cornelio Alves — cabra bom da pega! —, além dos mais recentes, como o (André) Canuto, já queridos. ‘Brigado, também, pelos Drs. Marcos Madeiro e Wenceslau Costa — médicos competentes até umas horas, que me salvaram a vida (verdade!) —, por meu advogado e amigo demais da conta (honra ter a sua amizade), José Costa, e pelo Nélson Feijó, que terá sempre meu carinho e minha gratidão.

Ah! agradecer à Santa Catarina! ‘Brigado, santa querida e, certamente, alvirrubra, por não ter deixado o meu CRB cair à Série C do Brasileirão (lá no seu Estado), em 2005 e 2006, e também pela evolução do Galo, agora em 2007 (você, junto com minha mãe querida do céu, têm participação nisto, certamente!).

Pra terminar, claro: Feliz Natal pra todos!

__________________
Escrito e originalmente postado em 2007.
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Tb publicado no Blog do AnDRé fALcÃO e no sítio Futebolalagoano.com

domingo, 29 de novembro de 2015

Para sempre, meu pai*

31/12/2010
*Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS, 28.11.2015, sábado.

Uma vez, você me disse: nada poderia ser mais importante do que a nossa união. Regozijava-se, porque via éramos leais uns com os outros. Vejo que isto é perceptível mesmo quando você já se foi, porque nossa mãe segue sendo a nossa liga.

Interessante como você parecia ser sábio, no seu jeito (só) aparentemente displicente de ver e dizer as coisas. Fui percebendo por exemplos que testemunhava na sua profissão, de médico clínico, e por diagnósticos ou prognósticos sobre os problemas da vida que nos desafiavam. Invariavelmente os ouvia, no silêncio de seu quarto, ou, mais amiúde, em nossas viagens pelo interior do estado, quando você conseguia me arrancar da cama para acompanhá-lo bem cedo, ou quando você se resignava aos meus horários, para ter-me consigo.

Uma vez colega seu testemunhou-me diálogo havido contigo sobre concurso público que eu prestara: se ele não passar, só passaram gênios. Sorri, porque você não me deixava perceber essa sua expectativa. Também me dizia da minha irmã, primogênita, que seria a melhor médica que poderia ter passado por aqui, não fosse tão boa nas letras, donde talvez por isto a sua caçula tenha seguido o caminho que aquela abdicara. Noutra, um dos filhos de compadre seu vaticinara-me: meu pai me disse: se ele tinha algum amigo na vida, esse amigo era o Toinho.

Nunca conheci ninguém mais da paz do que você. Certamente puxara a seu pai, o Major Ioiô, o mais pacífico “coronel” dessas bandas. E, aqui, você era involuntariamente dissimulado, porque quem não o conhecia tinha-o por bravo. Você era tão da paz, que não raro achei-o tolo, alguém que os outros teriam feito ou faziam de bobo. Para depois constatar que sua atitude era sempre a de quem tudo fazia para evitar o conflito. Em momento algum, porém, em que houvesse necessitado da sua presença masculina, você me faltou. Nessas horas de aflição, sentia sua força e o bem que ser seu filho me fazia.

Minha mãe foi muito amada por você. Nunca presenciei alguém que humildemente visse tanto a mulher como alguém muito além de si. Sempre percebi que você a considerava o leme de nossa família. Mesmo quando o leme era você. E ela, por sua vez, amou-o tanto, que estava definhando junto com você e as doenças que teimavam em testar a sua resistência. É, pai, a minha mãe teve a saúde renovada quando você, sem se render, foi chamado por nosso Pai que, finalmente, fê-lo descansar.


Aí, vez por outra, aqui no Villas, vejo-me a dizer-te do meu amor. E do amor que você nos deixou: a mim, a Rosina, a Dani, e a nossa mãe. Para sempre.

domingo, 4 de outubro de 2015

Amor e amizade, por gosto*

*Tb pub no Caderno SABER, do jornal GAZETA DE ALAGOAS, de 03.10.2015

Nunca pensei que amizade fosse mais importante do que o amor. Acho que assim deduzi intuitivamente. Apesar das poucas e boas amizades. Ou baseado no amor de então. Mas até por ser de então, negaria o que digo. Não sei. Mas nunca pensei.

Pra mim o amor sempre esteve acima de tudo. Na pior das hipóteses seria tão importante quanto. Quanto ao que houvesse a ser comparado. O amor pra mim sempre foi o máximo. Mas até por ser assim, o próximo, se existisse, negaria o que digo. Não sei. Mas pra mim sempre esteve acima.

O amor sempre esteve além. Nada se igualaria. Nem a amizade. Nem a maior das amizades. Talvez porque o amor, o verdadeiro amor, pra mim sempre ocupasse o posto maior também na amizade. Nunca consegui entender o amor que não fosse amigo. Para ser amor, teria que ser amigo. O mais amigo. Mas nem por isto seria excludente. Até por ser amor.

Fui descobrindo, talvez por sorte, que amizades e amores sempre são substituíveis. Não que sejam descartáveis. Mas quando você pensa que são eternos, e (ainda) não são, a vida sempre lhe brinda com a possibilidade de nova amizade e novo amor. Acho, por isto, que o único amor e a única amizade eternos são aqueles que você tem quando morre. Serão eternos, aqui.


Gosto da ideia de amor eterno. Gosto também da de amizade eterna. Gosto mesmo é de ser amado. Muito amado. Amor e amizade. Porque gosto de amar.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Natal, Cuba!


O tempo ainda se esforçava para tornar-se quente naquele princípio de verão em Colônia, mas quedava-se derrotado ao chegar da noite, principalmente “naquela noite”, que já nascera sob chuva, fortes trovões e sucessivos relâmpagos a iluminar, juntamente com as lamparinas espalhadas por suas ruelas, a aprazível cidadezinha a oeste de Montevidéu.

Foi assim que saíram a perambular pelas ruas de pedras do séc. XVIII, guarda-chuva preventivamente à mão ― que contudo mostrou-se objeto descartável, ali ― e o olhar contemplativo embriagado pelo atmosfera bucólica.

A rua era sintomaticamente chamada “das Flores”, ou Calle de las flores, e foi nela que em certo momento ingressaram, atraídos por pequeno restaurante ali instalado, com suas mesinhas e cadeiras que a invadiam.

Ao aproximarem-se foram efusiva e alegremente abordados por um homem dos seus trinta e poucos, quarenta anos, magro, alto, cabeça precocemente careca na parte superior, vestido com simplicidade, um pano na mão a denotar estava limpando as mesas das folhas e pétalas de flores que a natureza descartava.

“Olá, vocês souberam da novidade? São brasileiros?”, perguntou, num espanhol impregnado do sotaque e peculiaridades daquela região. “Hein? Sim, somos. Não. O que houve?”, disseram-lhe, num portunhol muito do imprestável e meio que de supetão, tentando assegurar-se de ter entendido as perguntas. “Caiu o bloqueio!”, exclamou, visivelmente tomado pela emoção. “Como assim? Que bloqueio?”, perguntaram tentando adivinhar. “O bloqueio econômico dos EUA à Cuba caiu!”, disse-nos quase em voz alta, sorriso estampado, e com as mãos e braços meio balançando, como se com isto pudesse fazê-los entender melhor. “Obama e Raúl Castro, com a intermediação do Papa Francisco, chegaram a acordo. É um momento histórico! Vencemos!” Ela não se conteve e deu um grito, mãos com punhos cerrados pra cima e lágrimas já deitando-se a escorrer. Ele, olhava pra um e pra outro meio embasbacado, a emoção já sentida e manifesta. Abraçaram-se. Não conseguiam conter a alegria. “Querem entrar pra comemorarmos? Ofereço um drinque!”, ofereceu emocionado. “Meu novo amigo, mas é claro que sim! Como não?”

Já mais tarde, no quarto de hotel e às vésperas do sono reconfortador que já se aproximava, deram graças aos céus por estarem naquele 17 de dezembro de 2014 na linda Colonia del Sacramento do belo, acolhedor e politizado Uruguay. Melhor do que isto, solamente en Cuba. Feliz Natal...

——————

*Tb pub no jornal Gazeta de Alagoas e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL

domingo, 9 de novembro de 2014

Suas mãos


Não sossegarei até vê-lo
Gosto tanto de ver as suas mãos nas minhas
Minha assinatura parece com a sua, sabia?

Acordar às quatro da matina
Lembra Miguel Ângelo Vaz?
Nós dois, com saco de plástico pra emagrecer?

O jeito másculo da sua assinatura
Bruto, rude, meio alheio às técnicas de autenticidade
Adorava vê-lo desenhá-la(?)

Pai, velho, hoje você deve estar por aqui
Porque não paro de te ver, caramba
Pai, eu te amo


Viu?

De novo, meu pai

Sinto saudades de ti
Suas mãos parecem com as minhas
Eu te amo tanto, pai

Sinto você por perto
Queria saber está comigo
Eu te amo tanto, pai

Não há dia sem você
Em todos lembro de ti
Eu te amo tanto, pai

Vejo alguém que dirige bem
Você que me ensinou
Eu te amo tanto, pai

Nunca me deixou faltar nada
Ao ponto de que nem percebia
Eu te amo tanto, pai

Olho de novo pra minhas mãos no teclado
Gosto de olhar as suas nas minhas
Eu te amo tanto, pai

Quero tanto que você esteja bem, pai
Quero tanto que você não esteja mais sofrendo
Quero tanto sentir você de novo comigo

Suas pernas magrinhas
Seu bíceps, que, eu pequeno, você me mostrou era grande
Sua presença que nunca me faltou

Seu desejo eu estivesse próximo
Seu pedido de socorro, doentinho
Eu te amo tanto, pai

Ah, como sinto sua falta
Como sinto falta de tanta coisa
Eu te amo tanto, pai

Quando me vejo descartando a guerra
Lembro que assim era você
Eu te amo tanto, pai

Não há madrugada que não lembre
Você as desbravava
Eu te amo tanto, pai

Penedo, quatro horas da matina
Ah, pai, graças a Deus acordei para acompanhá-lo
Eu te amo tanto, pai

Consegui trazê-lo aqui
Essa escada você subiu
Eu te amo tanto, pai

Lagartixa, as mais diversas épocas
Desde festa de Santa Efigênia
Eu te amo tanto, pai

O trator, os pés de laranja
Os passarinhos que desisti de alvejar
Eu te amo tanto, pai

Fico imaginando, pai
O tanto que você me amou e não disse
Eu te amo tanto, pai

Lembro do seu pedido de socorro na madrugada
Tinha que ser eu
Eu te amo tanto, pai

Lembro de tudo
Não há nada que me escape de você
Eu te amo tanto, pai

Sou capaz de ver sua cabecinha perto da minha
Quando são, e também quando doentinho
Eu te amo tanto, pai

Nada me era pior do que ir vê-lo naquele quarto
Tão fraquinho, tão indefeso
Desculpe-me, meu pai

Choro quando me decido a deixar você vir
Porque deixar significa sentir uma imensa saudade
E sempre tem sofrimento


Sinto tanto sua falta, meu pai...

Indo e voltando

Quero é amar-te
Levantara-me
Voltei
Quis dizer
Quero é amar-te

Quero é beijar-te
Lavara-me
Voltei
Quis dizer
Quero é beijar-te

Quero é abraçar-te
Levantara-me
Voltei
Quis dizer
Quero é abraçar-te

Quero
Por isto o fiz
Fazendo, retornei
Queria no fundo dizer-te

Amo-te

Amigo

Houve um tempo em que imaginei as verdadeiras amizades seriam eternas. E nesse sentido sempre me tive como alguém privilegiado. Boas amizades, e poucas. Ter poucas, inclusive, veio reforçar o privilégio que imaginei ter.

Já tive oportunidade de dizer, já a tive até de escrever. Já me imaginei tendo um amigo pra vida toda. Um amigo que soubesse de mim. Amigo é tão importante. A minha sorte é que nunca deixei de ter um.

Já tive amigos de todas as características. Mas uns dois, ou três, ou quatro, novos ou velhos, de antes, ou de agora, os tive. Tive até aquele que, pelo companheirismo, pela presença, física, inclusive, pelas risadas, pelas tristezas, pelo amor (é, pelo amor), sempre esteve comigo. Aquele que cria era e sempre seria talvez o meu maior amigo. Junto com outros que a ele se somassem, que fosse. Mas ele seria.

Aí você pensa o que fazer com todo aquele amor. Aí você pensa que tem que aprender a lidar com aquela ausência. Aí você pensa que continua amando, mesmo assim. Aí você pensa que esse tal de amor é uma merda, e não é, exato porque é amor. Aí você quer mesmo é que esse amigo seja feliz. Mesmo que você não participe dessa felicidade. Aí você, triste e com saudade o seja, que seja, reza por ele.


Sentires

Quando o que se sente
Se sente, mas parece diferente
É tudo, que mais pode
Mas não parece, olhando

Quando o que se sente
Se sente, e parece maior
É tanto, que tanto é
E olhando, parece

O que se sente
Tão grande é
O que é sentido
Ser parece não

O que se sente
Sua vida toma
O que é sentido
Falta, parece

Quando o que se sente
Se sente, maior não há
É tanto, você sente
E olhando, parece

O que se sente
Enche seu coração
O que é sentido
Coração parece vago

O que se sente
É tão grande
O que é sentido

Quer ser

Que me importam...


Que me importam as desilusões

Que sofri por não ter conseguido imaginá-las viriam

Que me importam as tristezas

Para as quais não fui capaz de me preparar

Que me importam as decepções

Que jamais as imaginaria (até por isto)

Que me importam os dias tristes

Que me importam as dores

Que me importam as falsidades

Que me importam as dificuldades


Que me importa a solidão

Se você jamais deixará de estar comigo...

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Aniversário

Foto no Hotel Jatiúca - Onde meu pai,
médico, fora homenageado pela Santa 
Casa de Misericórdia de Maceió.
Por que me sinto triste?
É meu aniversário e me sinto triste.
Saio do quarto, de manhã ainda cedo, meu filho já está aqui pra me ver.
Dá-me um abraço, meio desconcertado, mas tomado de amor.
Minhas palavras não fluíam com facilidade, pareciam querer ficar guardadas enquanto conversávamos, percebia.
E agora, enquanto escrevo, ele ainda permanece comigo, deitado bem próximo, meio cochilando.
Mas ainda me sinto triste.
Recebi felicitações várias, já, pela passagem de meu aniversário.
Inclusive da mulher que escolhi pra tentar fazer feliz, e de minhas duas filhas tão incondicionalmente queridas.
Todas me emocionaram.
Mas ainda continuo triste.
Há pouco estive com minha mãe em seu quarto.
Disse-me mais de dezena de “te amo” para mim, com olhos e gestos que não diziam outra coisa.
Tão linda, tão boa, tão mãe...
Mas ainda me sinto triste.
Entretanto, é meu aniversário.
E eu queria estar alegre, como vejo tantas pessoas que curtem mais aniversário do que eu ficarem.
Sim, porque eu também não sou, tipo assim (como dizem os jovens de hoje) louco, loucaço pelo meu aniversário.
Meu prazer é mais introspectivo e intimista, além de reflexivo, sempre percebi.
Mas junto, ou ao lado, normalmente está a alegria.
Hoje me sinto especialmente triste, porém.
Daí ter vindo escrever.
Tentativa de tentar me entender e ao que sinto hoje.
E de afastar de mim a tristeza de hoje.
Especialmente hoje.
Há pouco olhei meu filho que agora talvez já tenha entabulado o sono.
E ao vê-lo e o quanto o amo, pensei nas outras pessoas a quem também amo e que merecem e esperam a minha alegria, pelo menos boa parte do quanto eu próprio espero e mereço de mim mesmo.
Entretanto, é meu aniversário e continuo me sentindo triste.
Pensei também em você.
Pensei foi o tempo todo.
Desde que me acordei, penso em você.
Especialmente hoje, talvez porque hoje seja meu aniversário, como você também sabe.
Então sinto que tenho que segurar as lágrimas, ou deixá-las escorrer pelo meu rosto, soltando a natureza que me fala por meio delas e do aperto que meu coração me dá, ou sofre.
O fato é que elas estão em mim, adornando minha tristeza, ou querendo justamente limpá-la da minha alma.
E me dizendo, com a sua luz molhada, que você não me quer triste.
Então deixo que elas venham e se juntem a nós num abraço de filho pra pai.
Talvez o maior abraço que já nos demos.
Talvez parecido como o que há pouco voltei a dar no meu filho, ao nos despedirmos para daqui a pouco.
E dessa vez foi tão intenso...
Que talvez ao abraçá-lo tenha dado esse abraço em você também.
Não duvido você o tenha guiado até aqui logo cedo para me ver e me mostrar o seu amor por meio do amor dele.
Talvez também para lembrar-me de que por mais que eu tenha direito de estar triste, ela deve em algum momento ceder à alegria.
Por eles, por mim. E hoje, principalmente hoje, por você.
E então ouço você me dizer pra eu ter um “feliz aniversário”.
E sinto que na medida do possível eu devo procurar ter um “feliz aniversário”.
E tentar não me sentir triste.
Porque eu agora descubro que na verdade estou triste por você, e você não merece ser o motivo de minha tristeza, senão de minha alegria.
Ainda que essa tristeza por você signifique a tristeza pela sua ausência, tão recente.
Então eu choro mais um tanto, do tanto que já chorei.
Mas pareço encontrar forças para ficar alegre (ou tento acreditar nisto).
E as lágrimas parecem se transformar em lágrimas de agradecimento e de alegria.
E vejo que se a tristeza é pela sua falta, a alegria deverá ser por você.
Então vou tentar ficar com alguma.
Hoje é meu aniversário de 50 anos.
Dessa vez, especialmente, estou e estarei com poucos, muito poucos.
E por mim e por eles vou tentar ficar menos triste, ou alegre, vá lá.
Vou tentar.
Principalmente por você, meu pai.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Vai criar jeito, aí...

Seu olhar, pra raiz
Pescoço pende
Olhar vago
Levanta a cabeça, pai
Vai criar jeito, aí...

Bom entristecer-me, não
Pensando, não
Até consigo, na hora
Levanta a cabeça, pai
Vai criar jeito, aí...

Como fosse mania nova
Nada demais, normal
Tento não olhar, vendo
Levanta a cabeça, pai
Vai criar jeito, aí...

Olhar seu, pra frente
Obediência relutante
Meu cuidador, era
Levanta a cabeça, pai
Vai criar jeito, aí...

De repente, memória
Acorda! Tá na hora! A aula!
Eu, então cuidado
Levanta a cabeça, pai
Vai criar jeito, aí...

Difícil, pai
Algumas horas, mais
Olhar não, consigo, não
Levanta a cabeça, pai
Vai criar jeito, aí...

Saudade, pai
Ser cuidado, ainda
Cuidador, preparado?
Levanta a cabeça, pai
Vai criar jeito, aí...

Acarinho os ombros
Ossos, mais o que sinto
Com pouca carne, estranho
Levanta a cabeça, pai
Vai criar jeito, aí...

Compaixão, amor
Até maior, parecem
Tristeza, negar, não
Levanta a cabeça, pai
Vai criar jeito, aí...

Acorda, pai
Comprei esse vinho
“Bora bebê-lo?”
Está melhor, você
Gostou dele?

domingo, 10 de novembro de 2013

Testemunho

Pensava que vê-los envelhecer
Seria apenas ver diminuir-lhes a habilidade física e intelectual,
Um tanto bom de memória de hoje, perdida.
Pedia para vê-los envelhecer.
Só não iriam poder me acompanhar naquela ladeira toda,
Não conseguiriam talvez ir ao meu casamento.
Nem tomar algumas geladas comigo,
Sentirmos o cheiro do mato de fazenda e do asfalto enquanto eu dirigia, ele.
Não dar um passeio a pé pela orla, ela.
Ou deixá-la pagar meu lanche no shopping numa tarde qualquer,
Em que eu demorava a voltar ao trabalho depois de levá-la à médica,
Que ela só confiava ir, por pretexto pra levá-la, comigo.


Pensava que vê-los envelhecer
Seria apenas ver diminuir-lhes a vontade de ir a aniversários da família
Um tanto bom de memória de ontem, rememorada.
Pedia para vê-los envelhecer.
Só não iriam poder me acompanhar naquela viagem
Pra ver Mariana, e os parentes vivos, no Recife.
Não conseguiriam talvez ir àquela homenagem que receberia,
Nem comer um simples churrasco comigo,
Sentirmos o gosto bom do café da manhã de beira de estrada,
Enquanto eu dormia no banco de trás do carro, ele.
Não contar meus problemas, minhas angústias, meus medos, mesmo já adulto,
Pra não preocupar a ela.
Ou deixá-la me oferecer coisas de feira no supermercado,
Como se ainda não pudesse comprá-las.

Pensava que vê-los envelhecer
Seria mais ou menos assim, só.
Não é.
Vê-los envelhecer tem dor, também
Às vezes muita dor.
Muitas vezes.
Tem também muitos problemas,
Que às vezes chegam a impedir o que desejamos fazer.
É... até atrapalham nossas vidas.
Traz-nos novas e grandes e terríveis preocupações.
Vê-los envelhecer significa ser meio pai deles.
Só que enquanto eles sabem que são pai e mãe
A gente nunca conseguirá ser pai (ou mãe) deles completamente,
E a gente quer que eles jamais deixem de saber.
E agora não pensamos mais como filho, que precisa de conforto.
Mas alguém que tem que fazer o possível, e o impossível, para confortar.

Vê-los envelhecer às vezes dá uma tristeza tão grande..., tão grande!
E eu pedia para vê-los envelhecer.
E continuo pedindo.
E agradecendo...
Ah, que alegria que dá poder vê-los envelhecer...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O quadro


Podia ser o perfume de um quadro. De uma paisagem pintada num. Via todo ele num ângulo de quase 180º. Quadro com cheiro de terra e mato molhados pela repentina queda d’água, sem dar sinais prévios aos desatentos como ele de que viria. Tão rápida veio, quase tanto se foi. Quadro bonito, meio escuro. O sol já se pôs. Só a lua cheia o clareava. Ideal.

A boa música que ouvia no aparelho eletrônico e o remetia a tantas boas sensações e lembranças formava belíssima composição com o som que vinha do quadro. O vento nas folhas da mata e suas fruteiras produzia sinfonia que ora aumentava ora diminuía de volume. E aí via mais do que a natureza exposta no quadro vivo, sentia mais do que seu cheiro, ouvia mais do que sua música.

Às vezes o cheiro se confundia com o da mulher. O cheiro bom da mulher que discretamente vinha de vez em quando ver se ele precisava de alguma coisa. Não queria interrompê-lo. Sabia que ele escrevia enquanto contemplava o quadro que parecia confundir-se com a sua vida, agora. No momento em que ela se achegava era tomado também pela sensação de que o quadro perfumado e vivo alcançara a completude. Foi quando percebeu que do quadro também exalava calor. Aquele que o aquecia, liberando a passagem do vento frio, compensando-o.

Voltou a chover. Mais forte e com vento. Sentia em seu rosto, mãos e braços os raros finos pingos que conseguiam alcançá-lo. Mesmo assim não se movia, senão pelos dedos quase frenéticos a teclar. O mais — ver, sentir, ouvir — era imóvel que o fazia. Como que a tentar fotografar para sempre a imagem, o vento e o cheiro que vinham daquele quadro. Daquele quadro e daquela mulher com um cheiro tão bom, que de vez em quando o compunha. E que nesse momento era fotografado em sua mente e coração. Para eternizar-se.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O amor bom

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Também publicada no jornal impresso Gazeta de Alagoas, Caderno SABER, edição de sábado (05/05/2012)

Nem todo amor faz bem. Nem todo amor só faz bem. Há os que fazem algum mal. E os que só fazem mal. Amor pode ser bom, ou mais ou menos bom, ou “mais bom” do que ruim. Ou ruim. Não há amor verdadeiro, no sentido de que os outros seriam falsos. Se é falso, não é amor. Todo amor é verdadeiro. O amor é. Simplesmente. Ou há amor, ou não há.

O amor não se explica. Sente-se. É o sentimento que você tem do amor, que é o próprio amor, que faz você concluir se ele é um bom ou um mau amor, ou um mais ou menos bom, ou um mais ou menos mau. Tem que ter olhos pra sentir e coração pra ver. Se não você corre o risco de sentir um amor menos bom, pra sempre. Mas até de um amor ruim você pode aproveitar alguma coisa boa. Ele normalmente faz sofrer. Oportunidade de crescimento, pois. Para largá-lo depois.


Bom mesmo é o amor bom. Não o perfeito. Não existe. A perfeição não tem graça nenhuma. E o amor é uma graça. A graça do amor, embora divina, serve para o crescimento dos que amam. Logo, não poderia ser perfeito. Onde há perfeição, não nasce crescimento. O crescimento precisa do imperfeito para existir. O amor bom é imperfeito. Ou perfeito na sua imperfeição. No amor bom também pode haver aflição. Mas o gosto é mais doce.

Você sabe logo que o amor é bom quando ele não é ruim. Simples e óbvio assim. O problema é ter coragem de largar o amor ruim. Daí que até pra isto o amor ruim, ou menos bom, ou não tão bom, ou péssimo serve. Qualquer amor, assim, é o melhor parâmetro pra se reconhecer o amor bom.

O amor bom precisa de maturidade para existir. Pra ser bom. Não necessariamente idade adulta, muito menos experiência. Há velhinhos e velhinhas imaturos, e jovens maduros. E há pessoas que jamais aprendem com suas experiências. A maturidade também possibilita avaliar a qualidade do amor. Depois, ajuda a aperfeiçoá-lo, todo o tempo, de modo que você sempre pode e deseja torná-lo melhor, mas jamais o privará da graça da sua imperfeição. A maturidade permite que o amor seja dedicado, generoso, compreensivo, compassivo, seguro, respeitoso. Pleno. O amor precisa de água para não morrer. Mas quem faz com que o amor seja regado, todos os dias, é a maturidade.

O sinal mais visível do amor bom é a paz que ele dá. Sem a paz não há felicidade. Não há sequer saúde. Sem paz você adoece. Só o amor bom tem a paz dentro de si. O que torna um amor bom não é o desejo, a emoção, paixão, quentura de que seja impregnado. Até o amor ruim pode ser apaixonante. Mas nem por isto deixa de ser ruim. O amor bom vai além. O amor bom é mais. Tem mais. Mais de bom. Bom demais. O amor bom traz paz. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O decote

Inevitável a contemplação. Disfarçada, porque era o jeito, mas os olhos teimavam em admirá-lo. O decote mais lindo e gracioso que jamais vira diante de si. Os seios juvenis e proporcionais se ajustavam com indisfarçável rebeldia à generosa camiseta que os continha. Não a esperava àquela hora. Tomou um susto quando o porteiro avisou a sua chegada. O coração bateu aceleradamente. Desceu.

Conhecera-a numa festa, lá no Recife. Era linda. Tinha olhos castanho-amendoados, pele alva, cabelos pretos, longos e ondulados, sobrancelhas também negras e mais pra grossas. Baixa, mas tinha a estatura certa para aquele corpo esguio e bem distribuído. Conversaram a noite inteira. Completamente apaixonados. Tão e de tal modo embebidos daquela áurea romântica que sequer um beijo foi tentado, ou sugerido. O olhar e as trocas de impressões eram suficientes pra que aquela noite tornasse-se, depois, inesquecível. O envolvimento era flagrante, as horas passavam rápido demais. Afinal, começou a amanhecer, e a hora de se irem aproximava-se. A madrugada mais curta de suas vidas.


Num rompante percebeu que nada sabia sobre ela, apenas que costumava ir àquela balada aos sábados, e à praia de Boa Viagem. Só. Ainda tentou alcançá-la. Em vão. Mesmo assim, voltou pra casa feliz como nunca estivera. Estava apaixonado e tinha a convicção de que era a mulher de sua vida; logo, de novo a veria.

Daí em diante, foram semanas a dedicar-lhe todos os pensamentos. Já no sábado seguinte foi sozinho à mesma festa. Revistou cada metro quadrado do lugar. Nada. Voltou desolado pra casa. Passou a ir à praia todos os sábados e domingos. E à mesma balada aos sábados. Nem sinal. Mas ela não lhe saía da cabeça. Sempre ia aos mesmos locais à sua procura.

Até que num domingo bem distante, viu-a na praia. Sentiu o coração desgovernar-se. Controlando-se, foi ao seu encontro. Estavam visivelmente emocionados. Conversaram por longo tempo, até que a mãe (estava com a mãe) a chamou pra ir embora. Correram a trocar telefone e endereço.

Dois dias depois, ela apareceu no prédio com aquele decote estonteante. Aos poucos, porém, a admiração e o desejo cederam espaço a uma ponta de ciúme. Queria aquele decote apenas para sua exclusiva visão. Apaixonada e compreensiva, nada opôs. Casaram-se. Continua linda. Tem uma parte do guarda-roupa exclusiva para suas blusas mais decotadas, que lhe são mensalmente presenteadas por ele. Vários modelos e cores. Todas as noites o aguarda vestida em uma delas.