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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Vai pra Cuba! (II)*

*Tb pub no jornal Gazeta de Alagoas e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL

Imensa a dificuldade. Não havia agências de turismo que oferecessem algum pacote para Cuba, ou que tivesse conhecimento razoável de hotéis na ilha.Mais! Não descobrimos no Brasil uma só operadora a realizar a intermediação. A “culpa” não é delas,porém, tão vítimas quanto.

 

Com efeito, graças ao bloqueio cruel e bestial (ainda) imprimido à Cuba pela (ainda) maior potência econômica e bélica do planeta, inexisteabsoluta referência à ilha e a seus numerosos hotéis em sítios de busca na internet, invariavelmente estadunidenses.

 

O que (ainda) surpreendia, por ignorância, é que as dificuldades ocorriam, em primeiro lugar, no Brasil! Era aqui que a informação era suprimida, como nas piores ditaduras da história. Seria por isto, indagava então com minhas velhas e inutilizadas abotoaduras guardadas inertes no armário, a existência do autodenominado Movimento Brasil Livre, com o perdão pela irresistível ironia? Certamente que não, é claro. Bom seria que no Brasil, onde se vive a mais ampla liberdade de opinião e manifestação de toda a nossa história, tal movimento fosse contra a moderna ditadura, aquela imprimida pela grande mídia hegemônica e pelo poder econômico, muito mais determinante do que o político, como as investigações policiais hoje levadas a cabo estãodemonstrando.

 

No fundo, porém, acreditava, então, que as dificuldades se davam mesmo pela peculiar situação de Cuba, que (ainda) persiste em estado de vigília, em face dos milhares de ataques recebidos, sejam diretamente pelo governo estadunidense de então, seja com seu apoio. Redondamente enganado, porém. A verdade estava na compreensão antes exposta. A supressão de informação nos era imposta pelos grandes grupos midiáticos e por nossa sofríveleducação político-histórica; tornamo-nos tolos deslumbrados com tudo o que seja estadunidense, inclusive para desprezar a ilha. Exemplo maior é que a expressão “Vai pra Cuba!” é aqui, pasme, xingamento.

 

Finalmente, depois do auxílio inestimável e irrepreensível da agência de turismo escolhida, cujo nome não posso declinar, conseguimos hotel em Havana e partirmos.

 

Entre outras singelas observações e reflexões que aos poucos me disponho a aqui realizar, encerro afirmando que me deparei, naqueles saudosos dias, com uma multidão(!)de turistas canadenses e europeus, desde franceses, alemães e italianos, até austríacos, suecos e australianos, além de vários latino-americanos.

 

Brasileiros? Alguns poucos, muito poucos.


terça-feira, 24 de março de 2015

Vai pra CUBA!*

http://www.andremansur.com
*Tb. pub. no jornal Gazeta de Alagoas e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL, de 18/03/2015

Vai pra Cuba!, esgoelava-se, imaginando estar a agredir quem, como eu, entende que os governos Lula e Dilma, com todas as dificuldades e equívocos em que incorreram, são os melhores que este país já foi capaz de eleger e construir. Dados matemáticos provam irrefutavelmente o que afirmo, para ficar só neles. Abstenho-me de citá-los. Estão na internet, para quem quiser conhecê-los.

Uma vez um alagoano, vendo-me a tecer elogios a Cuba em uma rede social, provavelmente ao sucesso de suas políticas educacional e de saúde, indagou-me: André, você já foi a Cuba?, querendo com sua pergunta insinuar que eu só a defendia porque não a conhecia. Claro que para quem, como eu, conhecia um tanto da história e da realidade da ilha (ou das ilhas, como mais correto), mesmo sem lá ter ido, sua pergunta capciosa não encontrava guarida ao fim desejado. Mas ele podia fazê-lo, afinal estivera lá.

Noutra vez, assisti numa rede social alguém destilar lamentações do quão a pobre Cuba estava decadente, naturalmente face ao governo socialista que lá se implantara. Pobre Cuba, lamentava, com sua sensibilidade forjada no preconceito e, por isto mesmo, na ignorância acerca da história daquele povo.

Tratando-se de velho desejo irrefreável, fui à Cuba. E confesso que me surpreendi lembrando-me de suas observações, notadamente porque me era difícil compreender como alguém ligado às artes (ambos supostamente eram) poderia ter uma visão tão preconceituosa, limitada e canhestra acerca da ilha caribenha; a gente sempre tem a ideia (falsa, entretanto) de que um sujeito assim, por em princípio ter a sensibilidade mais aguçada, escaparia do preconceito ideológico que lhe fora, como aos brasileiros em geral, incutido. Ledo engano.

Então, fui. E constatei que Cuba era ainda muito mais impressionante, admirável, bela e culta do que imaginara. Se antes já admirava o cubano, passei a fazê-lo com a razão escorada no testemunho diariamente observado e constatado em cada esquina de qualquer aglomerado urbano de suas muitas cidades.


Aprendi muito. Mas por ora finalizo dizendo que uma das maiores lições que aprendi é que uma nação é mesmo feita de seu povo. Cuba é alegria, generosidade, sacrifício, coragem, beleza, luta, orgulho, autoestima elevada, educação, cultura, amor. E o povo cubano é o maior responsável por Cuba ser o que é. Lembrei-me das vaias e ataques sofridas por seus médicos ao desembarcarem em meu país. E intimamente aplaudi-os novamente, agora ainda mais envergonhado...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Natal, Cuba!


O tempo ainda se esforçava para tornar-se quente naquele princípio de verão em Colônia, mas quedava-se derrotado ao chegar da noite, principalmente “naquela noite”, que já nascera sob chuva, fortes trovões e sucessivos relâmpagos a iluminar, juntamente com as lamparinas espalhadas por suas ruelas, a aprazível cidadezinha a oeste de Montevidéu.

Foi assim que saíram a perambular pelas ruas de pedras do séc. XVIII, guarda-chuva preventivamente à mão ― que contudo mostrou-se objeto descartável, ali ― e o olhar contemplativo embriagado pelo atmosfera bucólica.

A rua era sintomaticamente chamada “das Flores”, ou Calle de las flores, e foi nela que em certo momento ingressaram, atraídos por pequeno restaurante ali instalado, com suas mesinhas e cadeiras que a invadiam.

Ao aproximarem-se foram efusiva e alegremente abordados por um homem dos seus trinta e poucos, quarenta anos, magro, alto, cabeça precocemente careca na parte superior, vestido com simplicidade, um pano na mão a denotar estava limpando as mesas das folhas e pétalas de flores que a natureza descartava.

“Olá, vocês souberam da novidade? São brasileiros?”, perguntou, num espanhol impregnado do sotaque e peculiaridades daquela região. “Hein? Sim, somos. Não. O que houve?”, disseram-lhe, num portunhol muito do imprestável e meio que de supetão, tentando assegurar-se de ter entendido as perguntas. “Caiu o bloqueio!”, exclamou, visivelmente tomado pela emoção. “Como assim? Que bloqueio?”, perguntaram tentando adivinhar. “O bloqueio econômico dos EUA à Cuba caiu!”, disse-nos quase em voz alta, sorriso estampado, e com as mãos e braços meio balançando, como se com isto pudesse fazê-los entender melhor. “Obama e Raúl Castro, com a intermediação do Papa Francisco, chegaram a acordo. É um momento histórico! Vencemos!” Ela não se conteve e deu um grito, mãos com punhos cerrados pra cima e lágrimas já deitando-se a escorrer. Ele, olhava pra um e pra outro meio embasbacado, a emoção já sentida e manifesta. Abraçaram-se. Não conseguiam conter a alegria. “Querem entrar pra comemorarmos? Ofereço um drinque!”, ofereceu emocionado. “Meu novo amigo, mas é claro que sim! Como não?”

Já mais tarde, no quarto de hotel e às vésperas do sono reconfortador que já se aproximava, deram graças aos céus por estarem naquele 17 de dezembro de 2014 na linda Colonia del Sacramento do belo, acolhedor e politizado Uruguay. Melhor do que isto, solamente en Cuba. Feliz Natal...

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*Tb pub no jornal Gazeta de Alagoas e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL

sábado, 14 de julho de 2012

O privilégio

www.blogdodanieldantas.com.br
Há pouco passou por um dos estabelecimentos bancários lá à beira-mar da Ponta Verde. Passava meia-hora da uma da manhã. A cidade parecia dormir, apesar de madrugada de domingo, como se fosse noite de sábado, ainda. Talvez muita gente houvesse ido para o interior, já que sexta fora véspera de São Pedro, e tem muita festa junina em todo o estado e no nordeste afora. Chovia um pouco, o que contribuía para conferir um ar ainda mais taciturno à cidade. Noite pra se estar em casa, pensou, enquanto imaginava outros também assim houvessem pensado para deixá-la só com seus fantasmas e suas mazelas.


Uma família estava à porta da agência bancária — pelo menos parecia uma família. Havia alguns meninos e meninas, talvez outros adolescentes, e uns dois ou três mais adultos, sei lá, dirigia devagar, mas não estava olhando na direção da agência bancária, viu quase sem querer. Havia um abrigo, pelo menos para a chuva e desde que não fosse chuva de vento. Não é que estivesse chovendo vento. É que a chuva vinha acompanhada de muito vento, então ela te molha porque te pega de lado, daí a expressão, comum, pelo menos no nordeste. Viu lençois também, com eles. Devia estar frio ali. A noite estava fria. Vinte e um graus, vira minutos antes. E chovia. E ventava. E lá era beira-mar, como disse antes. Pra ele tava friozinho. Um friozinho gostoso. Pra ele, que tava abrigado e bem abrigado. Já pra eles...

Aquela imagem ficou na sua cabeça. Conversavam, ou discutiam, parecia, um ou outro em pé, gesticulando. Mais do que isto não viu. Suficiente pra mais uma vez pensar como nosso mundo é injusto. Uns privilegiados e com direito ao conforto e segurança, outros a tão pouco ou a nada. E não havia, estava convicto, uma só mísera razão que justificasse fosse assim. Cruéis essas coisas do capital... Não achava justo que uns poucos tivessem tanto, e outros tão pouco ou nada, na imensa maioria das vezes apenas porque teve a sorte de nascer numa família com alguma posse.

Pensou nos filhos. Pensava sempre neles. Tinha medo dos perigos que todos os pais devem temer. Más companhias, drogas, qualquer coisa que os fizessem infelizes ou lhes tornassem cidadãos indignos. Também se preocupava como estaria o mundo em que viveriam quando adultos estivessem, sabido que o presente não lhe trazia bom presságio. Mas nesse momento, aliviado, pensou apenas neles agasalhados e protegidos da chuva e do frio. E, assim pensando, limitou-se a olhar pro céu e agradecer o privilégio.