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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Clareia

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Agora já não via mais nada, senão seu ombro desnudando-se, a pele alva descobrindo-se da fina alça do maiô que escorregara até quase a linha que faz limite com o antebraço. Sentiu o coração pulsar sôfrego e arrítmico, e a caixa torácica mover-se freneticamente em função das pancadas desferidas pelo músculo desesperado. Só conseguiu levar a mão ao peito, como pudesse com isto acalmá-lo, contê-lo. No mais, seus olhos e alma estavam grudados na cena e na tentativa instintiva, muda e telepática de soerguer o fino fio de tecido. Por que ele disfarçadamente não o faz, não a recompõe, conseguiu perguntar-se no meio da confusão emocional em que estava agora imerso. Tinha vontade mesmo de gritar para que o fizesse. Pudesse, avançaria em sua direção e o repeleria de perto de sua amada. Viu quando a mão direita do sujeito desceu de seu ombro esquerdo, lenta e sedutoramente, e passou por cima da alça, descansando durante alguns segundos logo abaixo dela, para em seguida fazer o movimento de volta, deixando-a onde já estava, novamente sem a mínima disposição de recompô-la. Ele não a suspendeu! Poderia tê-lo feito, o desavergonhado... Fez de propósito!, concluía, contendo-se para manter-se passivo e quieto em sua poltrona. Até que finalmente ultrapassado o limite de sua própria capacidade de suportar aquilo. A angústia que vinha sentindo até ali, o ciúme, a dor..., de nada mais lembrava (ou queria lembrar) e o que faziam ali ele e sua amada. O “pas-de-deux” chegara ao fim, mas para ele, mesmo do epílogo se tratasse, beiraria o insuportável. Olhou para a máquina fotográfica, conteve-se para não arremessá-la como fosse ela a merecer o castigo que seu coração mandava fosse impingido a algo ou a alguém, de modo a desarrochá-lo do aperto que sentia, e partiu.
É preciso explicar que não era recente sua dificuldade de lidar com o balé de sua amada, que já o dançava, diga-se, desde antes de se conhecerem. Muito menos que a tempestade se iniciara naquela tarde-noite de ensaio geral cujos momentos derradeiros acabei de narrar. E tampouco o problema fosse o balé em si. O problema era mesmo o “pas-de-deux”. Quando soube que ela iria dançá-lo, aí sim passou-lhe a ser um tormento; para ela, a luta pela mantença de um prazer cujo preço estava se tornando muito caro. Balé passara, então, a ser sinônimo de desavença, crises de ciúme, falta de paz, desgaste do amor. Ao menos não houvesse o “pas-de-deux”...


Na verdade, não suportava a ideia de outro homem a tocá-la, a envolvê-la nos braços enquanto deslizassem sobre um tablado ao som invariavelmente romântico da música escolhida para embalá-los, via de regra sedutora e sensual. Muito menos que isso se passasse durante vários meses, dezenas de semanas, inúmeros dias, incontáveis horas, inimagináveis eternos minutos de ensaio, contabilizava. “Não! Definitivamente, não aguento!”, dizia num misto de revolta e sofrimento à bailarina tão amada e ao mesmo tempo de coração tão apertado, talvez dividido, em mais uma das cada vez mais frequentes discussões que travavam a respeito.
Antes, antes mesmo do final trágico involuntariamente patrocinado pela indisciplinada alça, já houvera percebido que a peça inferior do maiô de sua amada — pois cavada que surpreendentemente o era, e à vista porque imediatamente abaixo do prato da fantasia de sua bailarina — deixava à mostra boa parte de suas pequenas e firmes nádegas adolescentes — certamente mais brancas do que os ombros —, enevoadas, felizmente embora, pela meia, cor da pele, a com elas confundirem-se, virgens à visão mundana que eram.
E aí já sofrera por demais, a quase sentir-se desfalecer para não ver o quadro que até então era a razão de sua aflição, a dor que só um rapazola — que ainda não conseguiu domar os instintos de sua espécie e sexo — pode sentir. Sofreu! Ah, sofreu! Penou enormidade quando olhou para as miseravelmente encobertas nádegas seminuas da amada, agora inaceitável e certamente sujeita aos olhos gulosos da plateia masculina (imaginava, sob o compasso violento do coração inconformado), especialmente dos conhecidos e desconhecidos adolescentes que, como ele, assistiam ao espetáculo.
Faltou-lhe ar, finalmente — e aí chegamos lá ao início dessa história, no que para ele se traduziu o clímax mesmo da tragédia —, ao perceber a fina alça de suas vestes libertando-se e indo repousar bem longe do ombro que a amparava, como a libidinosamente permitir que seu viçoso seio juvenil, tal qual flor que desabrocha, pudesse libertar-se das tênues amarras que o continham e mantinham sob virginal segredo, e viesse, ele também — talvez ambos, fosse-lhe a sorte bruxa cruel e desalmada —, às luzes que a acompanhava enquanto deslizava solene, elegante e graciosamente sobre o cúmplice palco que a tudo permitia. Não bastasse o que já lhe dilacerava a alma, aquela música a penetrar em seus ouvidos, em sua pele, seus ossos, disputando em si mesmo espaço físico e espiritual com a dor que o ciúme lhe provocava... Clareia... A luz do dia a contemplar teu corpo, Sedento, louco de prazer e desejos ardentes...
Foi-se! Sem mais conseguir suportar a dor que se lhe assemelhava a lança cruel que estivesse a traspassar seu peito e castigar sua alma, largou a máquina fotográfica trazida (olha, só) para registrar os melhores momentos da dona de seu coração, e saiu do teatro sem olhar para trás, mas torcendo, não vou mentir, houvesse sido por ela visto.
É que de um lado havia o ciúme e a dor por este provocada; de outro a insuportável ideia de perdê-la. Vejam só o dilema de nosso apaixonado herói!... Quer dizer: ia-se, mas queria ficar; desejava não mais vê-la, nunca mais, mas não aguentava imaginar a vida sem ela.
Assim, nada mais fazia do que imolar-se com esses sentimentos que teimavam em perturbá-lo, como só os apaixonados enciumados sabem fazê-lo. Sofria quando sabia, e fazia questão de lembrar, houve as aulas, os ensaios que naturalmente antecediam (e antecederam) aquele dia de ensaio geral, e sofria quando então imaginava os dois a dançarem, repetidas vezes, entre erros e acertos, o que somente era dor menos lancinante à míngua do testemunho; o seu. Pouco importava que o parceiro da dança não apresentasse comportamento minimamente másculo; era do sexo masculino, a tocá-la com o romantismo que a música teimava em imprimir, o que bastava.
Você já deve ter percebido que nosso amigo ama. Ama e sofre, como esta história já é prenhe de afirmar a você, leitora e leitor. Não! Não o julgue, partindo sofregamente em defesa da pobre bailarina — que nada mais fazia, reconhece-se, do que o seu ofício, ainda que gratuito, sua arte, sua técnica. Não o faça antes, ao menos, de pelo menos sopesar o tamanho do amor que lhe devotava nosso sofrido amigo. E sem olvidar que a exposição do corpo seminu da mulher-menina que amava, os carinhos que a dança e a música impeliam — talvez obrigassem —, fossem nela realizados por seu par; tudo isto lhe era difícil compreender e aceitar. Era um jovem homem, com sentimentos e emoções masculinas ainda selvagens, tais quais aquelas.
Encontrou-o sentado sobre pequena e baixa muralha situada próxima à casa de espetáculo, de onde se via toda a cidade, mas não vou escamotear: diante de si só as cenas que acabei de tentar narrar-lhes com a maior precisão e detalhes possíveis.
— Oi... Onde você estava? Procurei tanto... Quando acabou o ensaio não o vi mais... Gostou? — perguntou-lhe, desconfiada e em parte realmente interessada em sua opinião e aonde ele havia estado; noutra, tentando imprimir um sorriso que pudesse disfarçar a percepção evidente, para si própria em primeiro lugar, que algo não estava bem com seu amado e, principalmente(!), que ela era a causa.
Não sabia se ficava feliz ou com mais raiva por sua voz já tão perto, e por sabê-la ali com ele, tendo vindo atrás dele, havendo procurado por ele tão logo acabou a cena. Sabia que fora praticamente de imediato, calculou, porque pouco mais de cinco minutos haviam passado desde então. Naqueles poucos segundos em que ouviu sua voz pôde perceber a respiração dela ainda ofegante, seu cheiro doce de suor misturado com o da fantasia (maldita fantasia!), sua saudade... Mas sua vinda não se mostrara suficiente para extirpar a dor, a vontade de não estar vivendo aquilo, de nada daquilo ter acontecido. Sentia raiva dela, sim. Muita raiva, mesmo. E não sabia nitidamente — porque ainda extremamente envolvido com a ira provocada pelo ciúme —, mas certamente, senão feliz — muito longe disso, escritor! —, estava mais confortado pela demonstração de importância que percebera dela para com ele e, principalmente, com o amor que reciprocamente sabia sentiam.
Sim, nesse ponto me cabe não deixar dúvidas: ela não o amava menos. Na verdade, era completamente apaixonada por ele. Em suma: ele aparentava mais, aqui, porque estava a sofrer por ela (e por eles), e a história foca o drama tomado sob esse foco. Ela aparentava menos, porque naquela tragédia o seu papel, involuntário — e talvez injusto, vá lá —, era de algoz; o dele, de vítima.
— O que houve, amor? Porque não me responde? Sequer me olha... Fala alguma coisa...
Só o silêncio como resposta. O olhar para frente, sentado sobre o muro, as mãos ao lado do corpo, amparando-se na pedra fria, os pés cruzados pendentes sobre o ar. Percebia, de soslaio, seu olhar preocupado. A vontade dela era de abraçá-lo, beijá-lo, reconfortar-se em seu ombro e aguardar. Mas tinha medo de ser rejeitada fizesse algum gesto de carinho.
Após longa espera: — Vai ficar assim, mudo, como se nem notasse minha presença?
— Como você quer que eu esteja? Como posso estar feliz se minha namorada, a garota que amo, acaba de viver um clima de amor e sedução, e o sujeito, não bastasse, é um aproveitador? — respondeu, enfim, com o exagero próprio dos tomados pelo ciúme.
— Aproveitador? Como assim?
— Não percebeu que ele nem se dignou a recompor a alça de sua roupa que caíra?
— É... Percebi... Mas acho que ele nem percebeu, amor... Devia estar tão envolvido pela dança... Não por mim, garanto.
Novo silêncio.
— Precisava ser a roupa mais devassada?
— Tem razão... A costureira da escola errou... E tinha que fazê-lo justo com a minha! Arre! — explicou, quase revoltada com essa, digamos, falta de sorte.
Sabia que em poucos minutos seus pais estariam a chamá-los para se irem a casa. Tentava resolver antes, para não se separarem com esse clima ruim. Amava-o tanto, pensava. Entendia-o, mas também se sabia não fazendo nada indigno. Compreendia, porém, a dor do ciúme que sentia, ainda que contra si e contra sua segunda paixão — se é, caros leitores, que posso traduzir assim, hierarquicamente, seus sentimentos, idênticos por serem ambos paixão, mas tão diversos quanto ao quê e a quem lhes eram devotados, que, força desta distinção inevitável, tornavam-se também distintos.
Passados alguns instantes — a si pareciam intermináveis —, pousou sua delicada mão (estava fria) sobre a dele, que não a tirou. Instantes depois, pensou ter ouvido a voz de seus pais ao longe, chamando-a. Ouvira, mesmo, ao percebê-la mais perto. Lamentou-se, pra si mesma. Levantaram-se. Tratou de segurar a mão dele, que por força do gesto de se levantarem havia se soltado da sua. A mão dela estava agora aquecida — e não tenho a menor dúvida, caros leitor e leitora, a quentura se devia à paixão que ali se via transmitida, de um para o outro ser, num ir e vir frenético, inversamente proporcional aos passos lentos que lhes imprimia o movimento indesejado de voltarem à realidade — que não era a deles —, paixão que aquece o coração, e principalmente, ali, acalentava a mais fina dor.
Explicações dadas aos pais — desculpas, na verdade, pois sem qualquer apego ao que de fato havia acontecido —, que, por sua vez, pareciam entender que houvera ali uma pequena tempestade, a despeito da noite quente do nordeste brasileiro naquele verão de meados dos anos 1980, entraram no carro, ela sem desgrudar da mão dele, ele sem esforçar-se para dela rebelar-se. À exceção de um comentário ou outro de uma mãe orgulhosa do papel desempenhado por sua doce bailarina, tão jovem ainda, respondidos com heroico esforço de parecer atenciosa e alegre, e de um olhar de um pai com contida curiosidade e ponta de preocupação pelo espelho retrovisor, seguiram viagem. Ao fim, percebia-se até se tendo distraído pelo caminho, certamente pelo calor que vinha daquela mão que o compreendia e ao seu amor doído.
Chegaram primeiro ao seu destino. Despedidas realizadas, preparava-se para deixar o carro quando sentiu o aperto mais forte em sua mão, o abraço delicado em seu rosto, e aquela voz a dizer-lhe, num sussurro, com os lábios bem próximos ao seu ouvido: Vai dar tudo certo. Amo-te. Obrigada. Ele desceu.

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Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS, Caderno SABER, ed. de 04/01/2014, domingo

domingo, 15 de janeiro de 2012

Noivos


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― Espera! Para com isso, amor... Você já bebeu muito...
― Agora é que vou beber mesmo!
Tentou segurá-la pelo braço.
— Me larga — esquivou-se, grosseira, e partiu, bufando. Ele a seguindo. Passaram do nosso lado. Olhamos pra trás, os três, curiosos. Lá ia ela, à frente. Tentou aproximar-se e contê-la, com aquela expressão aflita e algo constrangida, sabedor de que aquela intimidade estava sendo compartilhada com os passantes da orla da Ponta Verde.
― Cê viu?! ― o pai perguntou, espantado, à namorada.
― E então... Ele havia reclamado de que ela havia bebido muito no último bar em que estiveram. Ela, braba, disse que “nem tinha começado ainda”!
― Vixe Maria! Como as coisas tão, velho!... E a cara de bobo-aflito dele... Visse?
― Cara de otário da poxa ― disse o filho.
(...)
Texto também publicado no jornal Gazeta de Alagoas, Caderno SABER, de 04/02/2012
― Meu irmão, isto eu via antigamente, mas ainda assim era o cara, normalmente um cabra grosso, quem fazia o que ela fez. E nem era tão comum...
― É mesmo — concordou a namorada.
― A mulherada tá virada na gota, hein? — disse-lhe.
Ela fez que sim com a cabeça, enquanto franzia levemente as sobrancelhas e, com os beiços fazia um bico, em que o inferior fica esticado pra frente e pra baixo, mais saliente do que o superior e cobrindo este. Tava pensando no que ouvira do namorado e no que havia ocorrido. Ele também refletia por alguns momentos sobre aquilo. Ela se cala pra pensar. Ele pensa enquanto fala.
— Tá calada...
— Tô pensando... Havia uma aliança em seu dedo anelar da mão direita.
Os três fizeram aquela cara de “oh, coitado!”
Era noite, e a belíssima orla maceioense, com sua brisa fresca vinda do mar calmo azul-esverdeado, e seus muitos bares e restaurantes, estava lotada de turistas e jovens em férias, aguardando pelas talvez melhores festas de reveillon do país, ou simplesmente deleitando-se com os derradeiros dias do ano. O verão definitivamente chegara e a orla, mais do que em qualquer outro período — porque também iluminada, e os seus hotéis e prédios residenciais, pelas luzes e ornamentos natalinos —, era um espetáculo bom demais de apreciar.
Haviam resolvido repetir o passeio que fizeram no final da tarde do mesmo dia. Saíram a pé e foram passear, mais ou menos do Kanoa (barrraca que é bar e restaurante) ao atual Restaurante Maikai, antigo Rapa Nui, passando pelo Lopana Clube do Pirata e Pedra Virada (outras barracas-bares). Lopana e Kanoa as mais badaladas. Definitivamente, moravam, mesmo, no lugar em que os outros escolhiam para gozar férias. E Maceió se tornara, também, uma autêntica cidade de veraneio, ao menos até onde, nela, existissem o quadrinômio sol, mar, baladas e gente bonita.
A garota também era bonita, dos seus 25 a28 anos, parecia. Hoje também é difícil identificar a idade das garotas. Muitas vezes, adolescentes em corpos de adultas. E com cara de mulher feita. Ou quase. Resultado de uma soma de hormônio, presente nas nossas proteínas animais, com muita malhação e, não raro, anabolizantes proibidos. Os homens, se ainda não é tão difícil a identificação da faixa etária a qual pertencem, são quase todos iguais: pernas finas, peito e braço bombados, também nem sempre às custas apenas do binômio malhação e alimentação suplementada com altas doses de proteínas e carboidratos.
O sujeito, o que levou o rela da garota, parecia uma mistura de gente boa com, com, com,... sei lá. Não era bonito, mas também não era feio. Detalhe: não era bombado. Eita! É mesmo... Será por isto que ela agia assim, embora a cara de legal do coitado? Mas lhe faltava amor próprio, acho. E moral. É! Faltava moral! — Cabra mole da boba — disse o filho. Era mesmo. Oxe!
Após voltarem, quando pensavam em retomar o passeio, novamente no sentido Sete Coqueiros-Ponta Verde, viram o tal casal no Lopana. Ocupavam uma mesa animada por cerca de seis ou sete garotas. Ele, o único homem, descansava a mão direita no colo dela, o braço um tanto esticado porque ela não estava próxima. Na verdade, quase de costas pra ele, falando, gesticulando e sorrindo alto.
Ficaram ali por perto durante um tempo, olhando o movimento e batendo papo distraídos. Deu preguiça de andar mais. Chope o pai não queria tomar, mas eis que a fome chegou. Pros três. Assim, depois daquela tradicional dificuldade de decidir o que gostariam de comer, foram enfrentar um temakizinho num japonês ali próximo.
Alimentados e tendo voltado ao calçadão da orla na direção de uma banca de revistas, eis que um sujeito quase esbarra no pai. Quando este se virou para ver o afobado, reconheceu-o. Era o rapaz cara-de-bobo-gente-boa que, apressado, ia embora. Sozinho e sem aliança.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Só um pedaço de papel no outono


Conto

Lá estava Maurício, de volta à vida de solteiro, naquela noite meio fria de uma sexta-feira de fim de outono de um ano quase distante qualquer, após longo período engaiolado. Trocava a roupa (trocava não, claro, porque vindo do banho devia estar sem roupa; logo, o correto é punha a roupa) para ir à sua primeira balada na nova condição. A maior dificuldade, de cara, seria arranjar um amigo, colega, ou conhecido mesmo (fazer o quê?), para servir-lhe de companhia, afinal, enferrujado como estava nas artes da conquista não seria uma boa alternativa a aventura iniciar-se solitariamente. Assim refletindo, e depois de puxar bastante pela memória, sem sucesso — já que os que se lembrara estavam casados ou namorando firme —, socorreu-se do novo recurso da consulta à agenda do celular (é que ele ainda é do tempo da agenda de papel). Já estava quase se dando por vencido, quando lá enxergou o nome de um sujeito com quem mantivera recente contato. Não era alguém com quem mantivesse alguma afinidade, mas era o que sobrara. Mãos à obra, então. Ainda teve sorte, pois encontrava-se em casa. Marcaram para daí a uma hora. Pontualmente, o cara apareceu. Eu ia dizer que ele foi pegá-lo, mas hoje pegar pode ser outra coisa.


Com ar de triunfo, — como quem anuncia uma grande nova e se dirige a alguém que não sabe mais o que é a noite, enquanto ele, o descoberto na agenda do celular, seria o descolado —, comunicou a Maurício que iria levá-lo a uma boate. Legal, pensou. Nunca mais pisara uma. E aquela não era uma qualquer. Era a da hora, a que estava bombando (mais uma gíria nova a somar-se às que vinha descobrindo). Vestia uma camisa de manga comprida, arregaçada (não era social, não, mas era de manga comprida). Jorge, por sua vez, com uma de malha, meio elástica, que se ajustava ao corpo e era curta nas mangas e no comprimento. Depois, bem depois ficou sabendo que se chamava “baby look”; até então pensava que “baby look” era só blusa, portanto só de mulher; homem vestia camisa, ora! Não, o companheiro eventual de balada não era viado, não! Ao menos não que soubesse, claro. É que era moda, como ainda hoje é. Deve ser pros marombados, que gostam de malhar ferro (tem gosto pra tudo), exibirem seus músculos. É, homem agora é exibido também. Até posa nu pra revista! E revista pra viado, imagina só! Quem diria um dia isso? Aliás, viado hoje não é mais viado. É gay. Mais uma bobagem. Deve ser por causa do tal do politicamente incorreto. Ora, cada um faz o que quer com..., deixa pra lá. Hoje em dia, até dizer que “tá preta a coisa” pode ser interpretado como preconceito. Ah, viado está com “i”, aqui, pra diferençar do veado, bicho que anda de quatro (sem trocadilho, por favor).

Estacionam o carro próximo. Chovia. Sempre chove em Maceió nessa época do ano. Prenúncio do inverno que está por vir, certamente. A noite fica meio triste. Mas não aquela, claro. Ele até pensou ter visto a lua!... Por isto mesmo cogitou de levar um guarda-chuva, mas desistiu: seria uma atestado de antiguidade. E quem seria antiquado de ir para a noite com um utensílio desse, hoje em dia? Oxe! O jeito foi correr. E tome chuva na carcaça. Por isto detestava aquela estação do ano, para quem nada mais era do que um inverno metido a bonzinho, porque teoricamente mais brando. Uma estação hipócrita, isto sim! Um inverno dissimulado.

Entraram. Escuridão do caramba! Difícil enxergar alguém, o que dizer-se de olhar nos olhos de alguma menina (menina é como ainda se referia a uma garota ou mulher bonita), a não ser que se ficasse a quinze centímetros do seu rosto. Tava ferrado, pensou. Então não iria poder dar uma paquerada antes da, digamos, abordagem que, sonhava, se seguiria? Despediu-se de Jorge — a essa altura rodeado de amigos dele, também de “baby look” e também marombados e falando abobrinhas (gritando, porque o som e o barulho de vozes era ensurdecedor) — e pôs-se à caça. Antes, o reconhecimento do terreno. Vou dar um giro (uma volta), pensou. Não demorou muito, identificou o “dancing”, embora havia gente dançando por quase toda a boate. Comprou uma cerveja, com bastante dificuldade — dado o número de pessoas que queriam o mesmo ou alguma outra bebida —, encostou-se no balcão e ficou a espiar, sondando o ambiente ao redor. Tomado o primeiro gole, a dura constatação: quente! Voltou ao vendedor. Reclamou. “Tá tudo assim”, disse-lhe. Pediu gelo. Sapecou umas duas pedras no copo descartável e voltou ao balcão. O fato, porém, é que apesar da companhia remediada, da impossibilidade de levar seu guarda-chuva, dos marombados, das abobrinhas, e até da cerveja quente, estava na boate! E estava satisfeito consigo mesmo.

O movimento de gente passando (se espremendo umas nas outras) era muito grande. As mulheres, normalmente em bandos, e os caras, idem. E ele sozinho a observar, tentando ao mesmo tempo, mas sem sucesso, paquerar alguém com seu velho método. Deparou-se, assim, com a primeira novidade: os rapazes, agora, abordavam as meninas pegando em sua mão ou no seu cabelo, quando estas passavam por perto. Já as garotas desfilavam mais das vezes perfiladas em trenzinhos, saltitando uma atrás da outra ao som da música. Em resposta ao talvez agressivo assédio, ora eles recebiam uma careta de desprezo, ora de raiva, ora um desaforo, ora nem um olhar, mas não raro também uma expressão de quem gostou da afoiteza masculina. Vezes ouve em que a pegada na mão era tão bem acolhida, tão bem recepcionada, que a mina se virava e recebia (ou tacava, ela mesma) um guloso beijo na boca do muito bem-vindo atrevido. A essa altura, ninguém sabia quem é que era atrevido, afinal. Enquanto isto — vale dizer, enquanto engalfinhavam-se e às suas línguas —, as outras aguardavam, excitadas. Depois, supostamente com a sua ainda íntegra e corretamente alojada em sua cavidade bucal, “libertava-se”, feliz, do feliz assédio, e voltava a tomar o seu lugar no trenzinho, lambendo dos beiços o resto da baba do moço. Maurício ficou meio tonto. Um misto de decepção e excitação. É que pensava (pensamento tipicamente masculino, sabe como é): e alguma pra namorar, como vou encontrar, como vai ser? Daí a parcial decepção, fazer o quê? Não vou mentir pra você, leitor. Mas também excitado ficou, afinal, concluiu, não estava ali pra arranjar namorada. Pelo menos não por um bom tempo. Ao contrário! Outra cerveja, então.

Ainda atordoado digerindo as novidades, percebeu uns caras dançando soltos. Qual não foi sua surpresa, entretanto, ao ver que não havia uma só mulher na “roda” que formaram. Dançavam aparentemente uns com os outros, feito as garotas da sua época faziam, isto é, entre si. Foi aí que constatou que o fenômeno não se limitou àquele “círculo”. Outros havia, maiores ou menores. Dançavam sós, isto é, com eles mesmos e sem mulher no meio, muito menos ao lado. Numa boa. Estava pasmo. Isto lhe seria impossível de imaginar. Troço desses acontecesse “no seu tempo” iria ser uma zoada danada... Como as coisas haviam mudado... Tô fora!, pensou.

Assim estava organizando as idéias, quando de repente uma bela mulher chamou-lhe a atenção. Conversava com uma ou duas amigas. Tentou encará-la, apesar da dificuldade já relatada, decorrente da luz escassa e das luzes psicodélicas frenéticas. Finalmente, entretanto, teve a impressão de ter sido notado. Continuou insistindo, enquanto percebia o ânimo voltando-lhe. É que, como já relatei, à excitação que sentia veio juntar-se, também, um tanto de decepção com a facilidade com que as pessoas se entregavam umas às outras, ainda que a entrega fosse apenas parcial. Por ora, pelo menos, via como parcial. Pois bem, ao olhar para a garota teve a nítida impressão de estar sendo correspondido, mas não ainda com a certeza que faltava para impulsioná-lo a abordá-la, ou, mais modernamente, chegar junto. O medo de levar um fora, amplificado pela falta de prática no ofício, em que se encontrava, fazia com que, cautelosamente, aguardasse mais um pouco. Enquanto isto, começava a sonhar, imaginando os melhores desenlaces para aquela paquera que se iniciara. Sim, agora constatava, ela o olhava também, repetidas vezes, embora furtivamente.

A bebida acabara. Foi comprar a última, para ajudá-lo a tomar coragem. Ainda socorreu-se do gelo no copo. Dois minutos depois, voltara. Procurou-a. Não a achou, entretanto. Droga!, pensou. Onde diabos se meteu? Maldita cerveja. Perder por causa dela — e que sequer gelada estava(!) —, a única mulher em que depositara alguma esperança de sucesso... Espere... Quem era aquela a beijar tão freneticamente, tão fogosamente o seu parceiro, que mais parecia uma só pessoa e não duas? Era-lhe tão familiar... Não, impossível! A garota estava ali, após apenas pouco mais de um minuto da hora em que saíra, abraçando-se e sendo abraçada gulosamente, sofregamente por outro. Ficou estatelado. A decepção foi total. Sentiu-se levemente deprimido, até. O sabor amargo da desilusão foi-lhe empurrado goela a dentro. Jogou a cerveja fora. Ficou ainda algum tempo a olhar a cena. Sentia-se quase traído. Aos poucos, porém, foi compreendendo melhor a situação, e até agradeceu aos céus por ter-se afastado aquela hora. Afinal, carente como estava, já se viu enamorando-se da garota, o que certamente lhe traria decepção ainda maior, depois. Ao menos parecia crer nessa suposição e nela confortava-se. Sua auto-estima, de qualquer modo, fora seriamente abalada. Convencido disto, dirigiu-se ao caixa. Nem se despediu de Jorge. Pegou um táxi, foi embora. Nunca mais voltaria ali, pensou com convicção...

Quinze dias se passaram. É, novamente, sexta-feira. Nosso amigo volta à mesma boate. Tomara umas duas latinhas de cerveja antes, no balcão de um bar próximo, pra esquentar. Veste uma camisa de malha, meio elástica, que ajusta-se um pouco a seu corpo (ainda) de poucos músculos (o pouco tempo de academia de ginástica não fora naturalmente suficiente a conferir-lhe a estampa que desejava). Sim, vestia uma “baby look”. De homem, fazia questão de ressaltar para si mesmo, enquanto conferia seu visual no espelho ao vesti-la para sair. Aliás, perguntou umas dez vezes à vendedora se aquilo era pra homem, mesmo. Comprou três.

Já entrou na boate meio dançando, cheio de ginga. Sentia-se o bam-bam-bam, o cão chupando manga, o “o” do bobó. Ao menos botou na cabeça que agiria assim, e assim estava atuando. Nada de sentimentalismos bobos, romances, muito menos baixa auto-estima. Se a coisa era “banda voou”, era no ritmo dessa banda que iria tocar. Pondo, literalmente, mãos à obra, não demora muito puxa o cabelo de uma gatíssima que passa perto, num trenzinho similar aos que vira naquela noite primeira. Repete esse gesto umas três vezes. Recebeu um “humpf!”, de um, um ar de desdém, de outra, mas já um risinho, de uma terceira. Segura a mão de uma quarta, que, afinal, corresponde. Rapidamente puxa-a pra dançar, solto mesmo. É que música pra dançar colado não existe mais. Arrisca beijá-la. É correspondido. Continua beijando. Pára. Continua dançando. Beija de novo. Falta-lhes o ar. Descolam as bocas. Repetem o gesto. Finalmente separam-se, como se aparentemente houvesse chegado o término combinado do entrelaçamento. Passam outras. Pega o braço, primeiro delicadamente, em seguida com firmeza. Ela olhou pra trás e sorriu, ao primeiro carinho. Beija-a, escandalosamente, ali mesmo. Separam-se e ela parte. Maurício vai ao banheiro, depois ao bar, onde pede uma cerveja para recuperar a saliva gasta nos beijos vitoriosos. Pensa: beleza..., se essa é a nova regra dos tempos modernos, tô dentro, já assimilei. Só não vou dançar com macho!

Acabou a cerveja e, daí a pouco, lá se foi pro “dancing”, agarrado a uma nova conquista e com a boca já melada de batom. Sentia-se todo-todo. Durante os refregas, os hormônios já não paravam de falar-lhe. Chamou-a pra sair da boate. Aceitou sem relutar. Chovia bastante, como de costume. Seu carro — agora estava de carro, claro —, estacionara longe. Foram correndo, debaixo de chuva mesmo. Sentia a roupa já molhada grudar em seu corpo. Na correria, ainda conseguiu olhar de lado, tentando apreciar como estaria a dela, sabido que era branca e de um tecido fino, levemente transparente quando seca, o que dizer-se assim, molhada... Olhou também pra sua face, que lhe pareceu ainda mais linda molhada e com os cabelos sensualmente desgrenhados. Dançaram, beijaram-se, abraçaram-se, saíram juntos da boate, mas ainda não sabia o seu nome.

Após algum tempo, em que desfrutaram da intimidade protegida pela chuva de outono incessante e pelo embaçamento do vidro do carro, deixou-a no endereço que lhe indicara, não sem antes pegar seu telefone, que ela mesma tomou a iniciativa de informar. Já em sua casa, deitado em sua cama e olhando para o teto, cansado da noite movimentada (e apertada), sentiu de repente uma rápida sensação de vazio. Lembrou de que nem havia perguntado seu nome. E vice-versa. Entretanto, apesar da estranha melancolia que teimava em perturbá-lo um pouco, satisfação era o que preponderantemente sentia. E com toda a disposição. Imaginava já como seria o dia seguinte, o sábado, e os que se seguiriam. Ah, a modernidade!... Seriam mesmo aquelas as novas regras do jogo do amor, da conquista? Fossem, aprendera direitinho. Parecia já estar em pleno verão, quando os hormônios jorram a todo vapor. Entretanto, ainda viria o inverno. E lá fora, numa poça d’água de chuva qualquer da rua em frente, jazia um pedaço de papel com um número de telefone.

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Também publicado no jornal Gazeta de Alagoas, Caderno Saber, de 03/01/2009, e no site BrasilWiki!
Foto: olhoabertoparana.blogspot.com