segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Sortes simples em Maceió



Tive sorte, muita sorte: pizza na Sorriso; primário no Imaculada, com Zé Carlos e Xisto; lá, campeões com um gol de pênalti que fiz, o que me rendeu ser erguido nos braços (suprema emoção!): o gol era um vão, de 2m (de altura) x 70cm, que dava acesso ao corredor dos banheiros. No Marista, uma medalha: melhor aluno (cursava a 7ª série e não sabia da aferição, mas, embora surpreso e tímido, fiquei muito contente); futebol, no Águia Negra. Tá, no “Aguinha”, da pivetada. E daí? Ops! Gazeei umas aulas e me foi “solicitada” a saída de sala em outras tantas. Poucas.

Tive sorte, muita sorte: comi fruta tirada do pé (alheio); fomos (Ranulfo já incluído) lanchar na novíssima lanchonete do Bompreço da Pajuçara e na Lobrás, às matinês do São Luiz e, à noite, ao Plaza (filmes impróprios). Domingo, Sete Coqueiros (ponto de encontro), comer zip-zip no treiler (assim, aportuguesado mesmo), de mesmo nome, do Galego e passeburger, no Passaporte Gaúcho. Nos “assaltos” do Tonho Setton e do Ricardo Carnaúba — os melhores, em suas respectivas épocas —, dançar muito “Hotel Califórnia”, do Eagles, as trilhas dos filmes do John Travolta e da novela Dancing Days...

Tive sorte, muita sorte: praia do “Ipaneminha”, boates Oitão (quase de fralda), Stallus e Middô, o Fornace, bailes de carnaval da Fênix... Saímos até na Jangadeiros Alagoanos! Ônibus, só sem pagar, descendo pela traseira (a borboleta era atrás). Acampei, com o Zé e o Purê — seu Camucé não deixava o Camucé ir — na Paripueira (festa de St° Amaro). A Danúbio: festa de salgados, doces e paqueras nas tardes de férias. Às vezes, uma ida à Shups, matar o calor. Os Festivais de Cinema de Penedo (chinfra!), com o Kleyner, o Rio, com o Purê — quando fugimos de um perseguidor imaginário, na deserta estação ferroviária da Zona Norte — e a Faz. Santa Fé, do Prado.

Tive sorte, muita sorte: identifiquei-me, desde cedo, com ideais ditos “de esquerda”; gostava de ouvir os discursos avermelhados de José Costa, Eduardo Bomfim e Moura Rocha; em passeata estudantil de protesto, no Recife (cursava Engenharia na Federal de lá), meu rosto quase ampara um soco (perdido) de um policial do “Choque”: privilégio, o risco sofrido.

Por essas sortes que tive, vivi esses momentos únicos, no final da infância, início da adolescência, numa outra Maceió. Essencialmente simples, tornaram-se inesquecíveis na sua simplicidade. Tive sorte, muita sorte, tê-los vivido. Graças a Deus!
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Escrito em mar.2016
Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 10/3/2006
Foto em https://culturaeviagem.wordpress.com/2013/03/16/orla-de-maceio-passado-presente-e-futuro/

Gramados enfezados



Mais agradáveis poderiam ser os breves passeios que por recomendação médica tenho realizado na recém-concluída urbanização da Sílvio Viana — e pensar que por pouco seriam na Robert Kennedy (ôxe!).

Não, leitor(a), sem crítica aos gramados e calçadas (têm até sido razoavelmente limpos e aguados) ou aos coqueirais da Sílvio Viana (reurbanização havia séculos aguardada). Nem vou protestar contra a crônica poluição do mar, que apesar disso majestosa e serenamente compõe nossa belíssima bacia da Pajuçara, ao menos para nosso deleite visual.

 
O assunto é a sujeira permitida (às vezes até estimulada!) pelos passantes da Sílvio Viana. Definitivamente, não têm respeito pelo bem comum.


É, é sobre cocô. Não excrementos, fezes...: esses são sinônimos tolerantes demais. Já basta me abster de citar outros mais sonoros, em atenção aos mais sensíveis. Mas cocô, faço questão! É distintivo, perdoe-me. Inaceitável, porém, o seu depósito em locais impróprios, como os gramados e calçadas da Sílvio Viana.


Claro que não estou a tratar do seu, nem do meu: não invadiria assim a sua intimidade, tampouco exporia a minha. Minha insubmissão é com a presença atrevida, deseducada e “ameaçadora” (aos nossos pés e calçados) dos produzidos pelos cãezinhos e canzarrões. Melhor: meu protesto é contra os bípedes a quem os quadrúpedes acompanham no passeio (quem será quem, hem?). E são de todas as idades: desde a(o) empregada(o) da casa onde habita o canino, passando pelo “marombado”, com seu pit bull, até os mais idosos... Todos suspeitos.


Além dos inocentes anônimos, correram o risco — porque vieram fazer-me companhia no passeio convalescente (meu dever, pois, evitar-lhes desafortunada pisadela no dito cujo) —meus amigos Ranulfo (amizade que é vinho de boa cepa) e Marcelo Malta (irmão camarada), minha amada namorada, Dolly (como bom varão, empreendi cuidados redobrados), meus pequenos, Andrezinho e Ananda, ainda indefesos contra as agruras da vida — aí incluídos os cocôs de cachorro (minha adolescente, Mariana, porque em Recife, escapou desse lazer adrenalínico) — e até minha mãe querida (cujos cuidados dispensam referência). Todos viveram essa mal-cheirosa tensão.


Portanto, por favor! Você, que vestiu a carapuça, ouça as placas fincadas nos gramados da Sílvio Viana, que berram — já roucas — para seus ouvidos mal-educados: Não deixe o seu cão sujar a grama! E a calçada (acrescento)! E se sujar, limpe o seu cocô! Não o seu. O do cão! Ah, sim: não pise a grama!

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Escrito em fev.2006
Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 17/02/2006
http://parquenovoiraja2.blogspot.com.br/2013/04/aos-donos-de-cachorros-que-nao-recolhem.html

O saci e a bicicleta



Não! A recente cirurgia circunscreveu-se à região do já antes extirpado apêndice. Não atingiu, pois, qualquer área que pudesse estar a causar-me eventuais transtornos emocionais. Intolerância exacerbada, então? Talvez resultante do ingresso no (quase) eterno “time dos enta”? Tampouco. Aquilo sempre me incomodou, apesar de nunca me ter disposto a escrever mísera linha a respeito.

Então, por quê? Paciência esgotada. É isto! Quiçá porque dessa vez o absurdo, já como tal compreendido de há muito, soou-me agora inaceitável. Não sei. Ora bolas, afinal que importa? Tirou-me da letargia. E ponto.


O fato, lhes digo, é que não agüentei quando o repórter na TV mais ou menos assim anunciou: diversos bikers (é assim que se escreve?) reuniram-se para passear na cidade de São Paulo, em comemoração ao aniversário da metrópole. Bikers? Não, não ouvi mal.


Sem qualquer vestígio de piedade, cristã ou qualquer outra, o repórter fez questão de repetir, várias vezes, no decorrer do seu labor. Os bikers isso, os bikers aquilo... E eu definitivamente surpreso, e bufando! Aquilo já era demais! Estão matando a minha língua, pensei. Ou seria gritei, pra dentro? Definitivamente, o assassínio estava se consumando. 

Não bastasse o inaceitável homicídio da nossa curvilínea e esguia bicicleta, que impiedosamente tem sido chamada de bike, agora até ciclista deixou de sê-lo. É verdade. Decerto resultado de nossa histórica submissão à colonização dos alienígenas abastados, ciclista agora é biker! E durma-se com essa! Pobres Monteiro, Aldo...

Ah, que inveja dos patrícios de além-mar! Calma, ao confessá-la não estou a pregar o uso do rato, ao invés do mouse, nem de sítio, no lugar de site, como eles admiravelmente o fazem. Aí já seria devaneio demais! Tenho pretensões mais modestas, afinal nascidas no bojo de nossa subserviente atitude frente a tudo o que é europeu (ocidental) e, principalmente, norte-americano (olha o Dia das Bruxas, aí, gente!). Já me daria por satisfeito, pois, com a extirpação dos shopping center, self-service, 50% off, sale, hot dog, tour, car, delivery, game, beach soccer, light, diet, Maisons e Giácomos não sei das quantas, e por aí afora, palavras e personagens estrangeiros que tolamente reverenciamos e não raro sequer conhecemos ou sabemos pronunciar.


Mas é chique. Vende. Hum! É triste.


E como eles devem rir de nós... Né não?


Pronto. Desabafei. E viva o Saci-Pererê! Viva Lobato! Viva Rebelo!

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Escrito em fev.2006
Foto: http://pedalante.wordpress.com/2009/10/31/o-saci-pedala/
Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 03/02/2006, e em http://www.brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=9486 (site BrasilWiki!)

domingo, 29 de novembro de 2015

Para sempre, meu pai*

31/12/2010
*Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS, 28.11.2015, sábado.

Uma vez, você me disse: nada poderia ser mais importante do que a nossa união. Regozijava-se, porque via éramos leais uns com os outros. Vejo que isto é perceptível mesmo quando você já se foi, porque nossa mãe segue sendo a nossa liga.

Interessante como você parecia ser sábio, no seu jeito (só) aparentemente displicente de ver e dizer as coisas. Fui percebendo por exemplos que testemunhava na sua profissão, de médico clínico, e por diagnósticos ou prognósticos sobre os problemas da vida que nos desafiavam. Invariavelmente os ouvia, no silêncio de seu quarto, ou, mais amiúde, em nossas viagens pelo interior do estado, quando você conseguia me arrancar da cama para acompanhá-lo bem cedo, ou quando você se resignava aos meus horários, para ter-me consigo.

Uma vez colega seu testemunhou-me diálogo havido contigo sobre concurso público que eu prestara: se ele não passar, só passaram gênios. Sorri, porque você não me deixava perceber essa sua expectativa. Também me dizia da minha irmã, primogênita, que seria a melhor médica que poderia ter passado por aqui, não fosse tão boa nas letras, donde talvez por isto a sua caçula tenha seguido o caminho que aquela abdicara. Noutra, um dos filhos de compadre seu vaticinara-me: meu pai me disse: se ele tinha algum amigo na vida, esse amigo era o Toinho.

Nunca conheci ninguém mais da paz do que você. Certamente puxara a seu pai, o Major Ioiô, o mais pacífico “coronel” dessas bandas. E, aqui, você era involuntariamente dissimulado, porque quem não o conhecia tinha-o por bravo. Você era tão da paz, que não raro achei-o tolo, alguém que os outros teriam feito ou faziam de bobo. Para depois constatar que sua atitude era sempre a de quem tudo fazia para evitar o conflito. Em momento algum, porém, em que houvesse necessitado da sua presença masculina, você me faltou. Nessas horas de aflição, sentia sua força e o bem que ser seu filho me fazia.

Minha mãe foi muito amada por você. Nunca presenciei alguém que humildemente visse tanto a mulher como alguém muito além de si. Sempre percebi que você a considerava o leme de nossa família. Mesmo quando o leme era você. E ela, por sua vez, amou-o tanto, que estava definhando junto com você e as doenças que teimavam em testar a sua resistência. É, pai, a minha mãe teve a saúde renovada quando você, sem se render, foi chamado por nosso Pai que, finalmente, fê-lo descansar.


Aí, vez por outra, aqui no Villas, vejo-me a dizer-te do meu amor. E do amor que você nos deixou: a mim, a Rosina, a Dani, e a nossa mãe. Para sempre.

domingo, 4 de outubro de 2015

Rendendo-me à saudade (e à tristeza)*

*Tb pub no Caderno SABER, do jornal GAZETA DE ALAGOAS, de 03.10.2015

Sinto saudades de ti
Suas mãos parecem com as minhas
Eu te amo tanto, pai

Sinto você por perto
Queria saber está comigo
Eu te amo tanto, pai

Não há dia sem você
Em todos lembro de ti
Eu te amo tanto, pai

Vejo alguém que dirige bem
Você que me ensinou
Eu te amo tanto, pai

Nunca me deixou faltar nada
Ao ponto de que nem percebia
Eu te amo tanto, pai

Olho de novo pra minhas mãos no teclado
Gosto de olhar as suas nas minhas
Eu te amo tanto, pai

Quero tanto que você esteja bem
Quero tanto que você não esteja mais sofrendo
Quero tanto sentir você de novo comigo

Suas pernas magrinhas
Seu bíceps, que, eu pequeno, você me mostrou era grande
Sua presença que nunca me faltou

Seu desejo eu estivesse próximo
Seu pedido de socorro, doentinho
Eu te amo tanto, pai

Ah, como sinto sua falta
Como sinto falta de tanta coisa
Eu te amo tanto, pai

Quando me vejo descartando a guerra
Lembro que assim era você
Eu te amo tanto, pai

Não há madrugada que não lembre
Você as desbravava
Eu te amo tanto, pai

Penedo, quatro horas da matina
Ah, pai, graças a Deus acordei para acompanhá-lo
Eu te amo tanto, pai

Consegui trazê-lo aqui
Essa escada você subiu
Eu te amo tanto, pai

Lagartixa, as mais diversas épocas
Desde festa de Santa Efigênia
Eu te amo tanto, pai

O trator, os pés de laranja
Os passarinhos que desisti de alvejar
Eu te amo tanto, pai

Fico imaginando, meu velho
O tanto que você me amou e não disse
Eu te amo tanto, pai

Lembro do seu pedido de socorro na madrugada
Tinha que ser eu
Eu te amo tanto, pai

E eu torcia que não houvesse esse pedido
Pelas duas razões
Eu te amo tanto, pai

Não queria que você precisasse de socorro
E não me sentia forte para ajudá-lo
Eu te amo tanto, pai

Lembro de tudo
Não há nada que me escape de você
Eu te amo tanto, pai

Ainda vejo sua cabecinha perto da minha
Quando são, e também quando doentinho
Eu te amo tanto, pai

Nada me era pior do que ir vê-lo naquele quarto
Tão fraquinho, tão indefeso
Desculpe-me, meu pai

Choro quando me decido a deixar você vir
Porque deixar significa sentir uma imensa saudade
E sempre tem sofrimento

Sinto tanto sua falta, meu pai...