sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
domingo, 15 de janeiro de 2012
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― Espera! Para com isso, amor... Você já bebeu muito...
― Agora é que vou beber mesmo!
Tentou segurá-la pelo braço.
— Me larga — esquivou-se, grosseira, e partiu, bufando. Ele a seguindo. Passaram do nosso lado. Olhamos pra trás, os três, curiosos. Lá ia ela, à frente. Tentou aproximar-se e contê-la, com aquela expressão aflita e algo constrangida, sabedor de que aquela intimidade estava sendo compartilhada com os passantes da orla da Ponta Verde.
― Cê viu?! ― o pai perguntou, espantado, à namorada.
― E então... Ele havia reclamado de que ela havia bebido muito no último bar em que estiveram. Ela, braba, disse que “nem tinha começado ainda”!
― Vixe Maria! Como as coisas tão, velho!... E a cara de bobo-aflito dele... Visse?
― Cara de otário da poxa ― disse o filho.
(...)
Texto também publicado no jornal Gazeta de Alagoas, Caderno SABER, de 04/02/2012
(...)
Texto também publicado no jornal Gazeta de Alagoas, Caderno SABER, de 04/02/2012
― Meu irmão, isto eu via antigamente, mas ainda assim era o cara, normalmente um cabra grosso, quem fazia o que ela fez. E nem era tão comum...
― É mesmo — concordou a namorada.
― A mulherada tá virada na gota, hein? — disse-lhe.
Ela fez que sim com a cabeça, enquanto franzia levemente as sobrancelhas e, com os beiços fazia um bico, em que o inferior fica esticado pra frente e pra baixo, mais saliente do que o superior e cobrindo este. Tava pensando no que ouvira do namorado e no que havia ocorrido. Ele também refletia por alguns momentos sobre aquilo. Ela se cala pra pensar. Ele pensa enquanto fala.
— Tá calada...
— Tô pensando... Havia uma aliança em seu dedo anelar da mão direita.
Os três fizeram aquela cara de “oh, coitado!”
Era noite, e a belíssima orla maceioense, com sua brisa fresca vinda do mar calmo azul-esverdeado, e seus muitos bares e restaurantes, estava lotada de turistas e jovens em férias, aguardando pelas talvez melhores festas de reveillon do país, ou simplesmente deleitando-se com os derradeiros dias do ano. O verão definitivamente chegara e a orla, mais do que em qualquer outro período — porque também iluminada, e os seus hotéis e prédios residenciais, pelas luzes e ornamentos natalinos —, era um espetáculo bom demais de apreciar.
Haviam resolvido repetir o passeio que fizeram no final da tarde do mesmo dia. Saíram a pé e foram passear, mais ou menos do Kanoa (barrraca que é bar e restaurante) ao atual Restaurante Maikai, antigo Rapa Nui, passando pelo Lopana Clube do Pirata e Pedra Virada (outras barracas-bares). Lopana e Kanoa as mais badaladas. Definitivamente, moravam, mesmo, no lugar em que os outros escolhiam para gozar férias. E Maceió se tornara, também, uma autêntica cidade de veraneio, ao menos até onde, nela, existissem o quadrinômio sol, mar, baladas e gente bonita.
A garota também era bonita, dos seus 25 a 28 anos, parecia. Hoje também é difícil identificar a idade das garotas. Muitas vezes, adolescentes em corpos de adultas. E com cara de mulher feita. Ou quase. Resultado de uma soma de hormônio, presente nas nossas proteínas animais, com muita malhação e, não raro, anabolizantes proibidos. Os homens, se ainda não é tão difícil a identificação da faixa etária a qual pertencem, são quase todos iguais: pernas finas, peito e braço bombados, também nem sempre às custas apenas do binômio malhação e alimentação suplementada com altas doses de proteínas e carboidratos.
O sujeito, o que levou o rela da garota, parecia uma mistura de gente boa com, com, com,... sei lá. Não era bonito, mas também não era feio. Detalhe: não era bombado. Eita! É mesmo... Será por isto que ela agia assim, embora a cara de legal do coitado? Mas lhe faltava amor próprio, acho. E moral. É! Faltava moral! — Cabra mole da boba — disse o filho. Era mesmo. Oxe!
Após voltarem, quando pensavam em retomar o passeio, novamente no sentido Sete Coqueiros-Ponta Verde, viram o tal casal no Lopana. Ocupavam uma mesa animada por cerca de seis ou sete garotas. Ele, o único homem, descansava a mão direita no colo dela, o braço um tanto esticado porque ela não estava próxima. Na verdade, quase de costas pra ele, falando, gesticulando e sorrindo alto.
Ficaram ali por perto durante um tempo, olhando o movimento e batendo papo distraídos. Deu preguiça de andar mais. Chope o pai não queria tomar, mas eis que a fome chegou. Pros três. Assim, depois daquela tradicional dificuldade de decidir o que gostariam de comer, foram enfrentar um temakizinho num japonês ali próximo.
Alimentados e tendo voltado ao calçadão da orla na direção de uma banca de revistas, eis que um sujeito quase esbarra no pai. Quando este se virou para ver o afobado, reconheceu-o. Era o rapaz cara-de-bobo-gente-boa que, apressado, ia embora. Sozinho e sem aliança.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Arrastão? Que arrastão?
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A mais recente novidade é a difusão de que não houve arrastão, ontem, domingo/18. Sim, tudo não teria passado de boato irresponsável e criminoso, realçado e nutrido pela sociedade maceioense. Maceió, portanto, não fosse pela sociedade — que deu voz ao boato de que o arrasto grande se fazia propagar —, permaneceria tranquila e segura como sempre tem estado nos últimos anos, a despeito das mentiras que propagam. Resumo da ópera: a sociedade é a culpada. Não houvesse a sociedade, seria perfeita. Mas como uma cidade sem sociedade? Eita!, é mesmo...
Por outro lado, lendo uma reportagem da Gazeta Web, verifiquei relatos de que teria, sim, havido o arrastão azul — uma amiga, no Facebook, assim batizara (não entendi...) aquele ato de vandalismo. Teriam atestado a existência do arrasto-grande-azulado um guarda municipal, um motorista de ônibus, um escrivão de polícia, uma doméstica e um gerente de loja (os nomes de cada um estão lá, no sítio referido).
Observei, também, inexistir notícia, na mesma notícia, de que sofressem de algum distúrbio mental ou emocional, ou mesmo fizessem parte desses irresponsáveis propagadores do nefasto boato — a despeito de integrantes da sociedade maceioense, o que já é um indício de que estejam mentindo.
Observei, também, inexistir notícia, na mesma notícia, de que sofressem de algum distúrbio mental ou emocional, ou mesmo fizessem parte desses irresponsáveis propagadores do nefasto boato — a despeito de integrantes da sociedade maceioense, o que já é um indício de que estejam mentindo.
Isto me faz recordar um dileto amigo, ex-empresário do ramo de panificação, então proprietário de um estabelecimento ali na Ponta Verde, pertinho da Praça Lyons. Na verdade, vejo agora, mais um boateiro neurótico e visionário. O sujeito teria desistido do comércio porque a sua padaria (o estabelecimento, por favor!) fora assaltada mais de vinte vezes. Sim, vinte vezes! Queixas à polícia, câmera e segurança na loja. Não adiantou. E não aguentou. Após o último assalto, ameaçado de morte com o cano de 38 na cabeça, fechou as portas. Observe-se, diria ele pra mim, que isto ocorrera na Ponta Verde, onde haveria policiamento. Imagina na periferia... Vai acreditar no cara? Claro que não, né? Mais um mentiroso.
Por outro lado, mesmo fosse verdade o que dizia o meu amigo, mesmo que esses assaltos e seqüestros que se sucedem no estado não fossem fantasia, mesmo que Maceió fosse, mesmo, a capital mais violenta do país (haja invenção!), uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa! Arrastão, não! Nem vem que não tem!
Hummm... Sabe o que é que eu acho, mesmo? Assim, sinceramente? A medrosa e irresponsável sociedade deu ressonância a esses fantasiosos e criminosos boatos só pra se vingar. Só pode ser. Chato, isso...
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(*) Não sou chegado a postar nada com palavrão (bobeira minha, certamente), mas essa do Humor da Terra tem tudo a ver.
Também publicado no jornal impresso Gazeta de Alagoas, pág. A-4, de 20/12/2011
Também publicado no jornal impresso Gazeta de Alagoas, pág. A-4, de 20/12/2011
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
A mala
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Estação Central de Milão. Aguardávamos o trem para Veneza. Precisava ir ao banheiro. Deixei Ana Paula e fui procurá-lo. Andei, andei,... e nada. Bexiga cheia, hora do embarque chegando, vi-me aperreado. Encontrei! Era pago. Tentei desesperadamente enfiar todas as moedas possíveis na máquina. Desisti.
Preocupada, sorriu aliviada ao me ver de volta. O trem chegara e não espera. Devo informar que em Maceió sugeriu-me comprar uma mala de quatro rodinhas, porque, argumentava, seu transporte é mais prático e, por isto mesmo, mais confortável: “bastavam dois dedinhos para empurrá-la”, dizia. Tsc-tsc. Que nada. Coisa de mulher...
Na verdade, logo que chegamos à Milão já senti uma ponta de arrependimento, vendo-a toda espigada empurrando sua mala com os dois pequenos e finos dedinhos.
Às vezes só com um. Tra-la-lá... (imaginava-a cantarolando em pensamento). Soubesse assobiar, estaria: fiu-fiu-fiu... De minha parte, peguei a alça da minha, deitei-a num ângulo de 45°, e fui puxando-a por uma das mãos. Percurso curto, não cheguei a invejá-la, ainda.
Às vezes só com um. Tra-la-lá... (imaginava-a cantarolando em pensamento). Soubesse assobiar, estaria: fiu-fiu-fiu... De minha parte, peguei a alça da minha, deitei-a num ângulo de 45°, e fui puxando-a por uma das mãos. Percurso curto, não cheguei a invejá-la, ainda.
Agora, porém... Nem bem chegamos aos terminais, onde estacionada uma carrada de trens, vi-os multiplicarem-se a nossa frente enquanto, correndo, procurávamos o 9729. Ela empurrando a sua, que deslizava serelepe e suavemente pelo assoalho limpo e liso; eu, puxando a minha sobre as duas míseras rodinhas, naquele ângulo de 45º, com o braço já doendo pelo peso da bicha, além do cansaço pela corrida. Sem falar na mochila (eu) e na bolsa (ela) que carregávamos junto ao corpo.
Depois de muito correr — lugar grande do créu! —, localizamos o trem. Faltava achar nosso vagão. Corremos mais, aflitos com receio de que partisse. Instantes intermináveis em que sequer me lembrava da bexiga cheia, a grande culpada. Vagão após vagão... Nada. Rápida conferência do bilhete. N.º 006. Ainda era mais atrás. Corre! Às vezes virava-me para vê-la (eu era mais rápido e ia à frente). Lá vinha ela, empurrando-a com um mínimo esforço.
Encontramos, finalmente. Malas pra dentro, ofegantes e suados, livramo-nos dos grossos casacos, cachecóis e gorros que pretendiam nos proteger do frio europeu de abril. Sentamos. Ufa!
Pouco depois, no banheiro do trem, enquanto me aliviava do já enorme peso na bexiga, pensava: se arrependimento matasse, estaria morto! Outro engano. Não estaria, porque ainda iria me arrepender muito, durante a viagem que mal começara, por não ter comprado a bendita mala de quatro rodinhas.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Culpa de minha mãe
Hoje, quando escrevo, é aniversário de minha boa e querida mãe. Anteontem, no aniversário de meu sogro (pai de minha namorada; aliás, ótimo sujeito), conversando com um bom amigo sobre o excelente momento do nosso querido CRB e o importante jogo que se avizinhava no dia seguinte, contra o América/RN — cujo resultado, é de se ressaltar, pois motivo de mais alegrias, conferiu ao Galo o direito de disputar a final do Campeonato Brasileiro da Série C —, fiquei sabendo que sua mãe já era falecida. Sem procurar dar destaque à informação, olhei-o, meio assim de soslaio, tentando esconder alguma tristeza solidária e constrangida, e vi-me a imaginar o quão privilegiado eu era por ainda ter a minha, comigo, neste mundo terreno e tão difícil de lidar.
Há dois meses comemoramos o aniversário de 80 anos de meu pai. Há cerca de doze anos voltei a morar com eles. A despeito de filho adulto convivendo com os pais, há absoluta harmonia. Raramente, raramente mesmo, vivenciamos alguma arenga. Sim, porque bons filhos não brigam com bons pais. Quando muito, arengam. No outro dia, mágoa inexiste.
Voltando ainda um tanto, fora a vez de minha filha caçula e minha primogênita. Daqui a cerca de dois meses, será o de meu filho, o do meio. Todos, absolutamente todos gozando de saúde. Todos igualmente prenhes de bons princípios e prática conforme a ética e a moral que ensinamos e esperamos venham a praticar.
Poucos dias atrás comemorei(amos) um ano de namoro. Período de plena harmonia, compreensão, generosidade, cumplicidade, companheirismo, maturidade, alegrias, paixão... Amor. Não faz muitos meses, completei 22 anos trabalhando na mesma empresa. Uma empresa que a despeito das mudanças neoliberais experimentadas pelo mundo e, também, pelo Brasil, retomou o respeito por seus empregados e pelo público a que serve.
Algum bom tempo atrás, percebi era capaz de despertar inveja. Por favor, não me entenda mal, caro leitor ou leitora. Não se trata de empáfia de minha parte. Definitivamente, não “tô me achando”. Mas ao mesmo tempo em que esta percepção me entristecia e, principalmente, surpreendia (sem falsa modéstia, inveja de quê?), confortava-me, afinal não dizem que o invejoso é apenas quem não se limita a admirar? Doutra parte, tenho irmãos e amigos verdadeiros e leais. Poucos, vá lá, mas maravilhosos.
Como você já deve ter percebido, amigo leitor ou leitora ― desculpa aí a intimidade! ―, a crônica tá emocionada e feliz. Uma coisa meio “balanço positivo”, né? Mas vou te dizer: tudo culpa de minha mãe.
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