quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Federal Savings Bank

Final de ano, o próximo que se avizinha, hora de balanço.

Bom, começo pelas coisas boas, dizendo que meu filho muito me alegrou neste pré-natal. Não, não estou grávido, tampouco promovi esse fecundo estado em alguma moçoila. Refiro-me ao período que antecede ao Natal. O motivo do meu regozijo, portanto, é que ele me pediu, de Papai Noel, uma... Sorry, a referência ao simpático e gordo velhinho de bochechas rosadas, lá do pólo norte, é porque além de povoar o imaginário de nossas crianças, é muito mais chique do que crer, por exemplo, num substituto similar gordinho nordestino. Quero dizer, no caso seria, na verdade, um papai noel barriga d’água! Pôxa, afinal, tudo que vem de fora é tão melhor...

Voltando ao que conversávamos: pediu uma... tchan-tchan-tchan-tchan: BIKE! Não é legal?! Início de 2006 escrevi uma crônica — “O Saci e a Bicicleta” — sobre isto que chamam — preconceituosamente, claro!, hoje sei — de estrangeirismo. É sério! Tá aqui no Blog do AnDRé fALcÃO. Vá lá pra conferir! Pois é, agora não sou mais xenófobo. Ao contrário, convenci-me — após ler uma reportagem recente, naquela famosa revista semanal brasileira tipicamente norte-americana — de que essa história de ser contrário aos termos estrangeiros que assolam o país é coisa de boboca xenófobo.

Assim, eu, que no meu período prenhe de xenofobia criticava tanto o uso dessas expressões alienígenas (vide a crônica, antes aludida), há poucos dias ouvi meu filho referindo-se assim, digamos, tão globalizadamente, à velha bicicleta: chamou-a, na seca, de BIKE! O orgulho encheu-me o peito! Não vou negar. Quase que grito: son, it’s so beautiful! Foi mesmo emocionante ver que não se tornou um xenófobo como eu fui (e hoje me envergonho tanto, mas agradecido àquele esclarecedor periódico). Refeito da emoção, ainda lhe perguntei, agora tentando dissuadi-lo da compra, que imaginei very expensive: “Mas deve estar muito cara uma bike", disse-lhe, caprichando na dicção do bai, da baike. Ele contra-argumentou, pondo-me à nocaute: “Não, pai, na loja Bike in the World está sale com 50% off!” Deus do céu, refleti, que prodígio! Peguei-o no braço e o abracei e beijei ali mesmo. Devo ter sido tão efusivo que, assustado, indagou-me, após libertar-se de meu exagerado abraço: “Ôxe, pai, que foi?” Interiormente desculpando-lhe o vício regional do passado (“ôxe”), respondi, cheio de orgulho, sentindo a quentura gostosa daquela solitária lágrima que escorrera de meu olho esquerdo (ou foi do direito?): Nothing, my little boy, nothing. Depois disto, ainda pude observar o vendedor também assim referindo-se à (agora, para mim, argh!) bicicleta: baike, pra lá, baike, pra cá. Sim, dear leitor, eu era testemunha, ali e naquele momento, da inserção definitiva de nossa mão-de-obra no mundo globalizado do nosso amado, bondoso e idolatrado Tio Sam. E o danado não falava bic, mas baike, mesmo, numa pronúncia impecável!

Agora, uma coisa chata: o nosso Presidente, que nos mata de vergonha falando português no exterior. Pior, um português bem povão, onde não faltam erros de gramática! Quanta saudade, meu Deus, daqueles discursos maravilhosos, em inglês, de tempos idos. Sociologia, Sorbonne, ah, tanta coisa chique que ficou pra trás... Agora é tudo tão chinfrim... Nada a ver conosco, que ansiamos tanto por ocupar o 1° lugar entre as colônias norte-americanas. Aliás, alguns trunfos já temos: a Amazônia, petróleo e vasto território (para barganha), e uma elite (olha eu aí, gente! Deixa eu ser também, vai...) que fala ingrês (ops, sorry, again, inglês), veste as cores do país-ídolo e ostenta seus símbolos oficiais (bandeira, etecétera), a todo tempo e lugar. Aliás, amigo leitor e vacinado contra xenofobia — como eu, agora —, quer coisa mais bonita do que a Estátua da Liberdade, linda, grandiosa, perfeita, na Barra da Tijuca de nossa conhecida Wonderful City? E que tal constatar, comigo, que o Dia das Bruxas chegou pra ficar, e — essa é da hora! — que está vindo aí, com toda a força (Deus é Pai!), o Valentine’s day? Já não era sem tempo. Santo Antônio tem mais nada a ver, hoje, no mundo globalizado. Namorar sim, mas sob as bênçãos de São Valentino (ou Valentim, para alguns). E viva o american way of life!

Um temor: o projeto do Deputado Federal pelo PCdoB/SP, o alagoano de Viçosa, Aldo Rebelo, que pretende regular o uso dos estrangeirismos em certos locais e para certos fins. Certamente inspirado na França, onde há algumas restrições legais. Só que ele não sabe, coitado, que a onda agora é o inglês! Era só o que faltava! Pelo amor de Deus, parem esse homem! Xenófobo! Ei! Xenófobo! Xingo mesmo! Adorei essa palavrinha, como vocês estão vendo. Stop, man!! Nós queremos continuar tomando ice cream, indo aos Shopping Centers, alugando nossos carros em alguma rent a car! Queremos pedir comida no delivery, e não num serviço de telentrega (ou teleentrega, olha a complicação), fazer um coffee-break, e não uma “pausa para o café”, comer num fast-food, e não num “comida a peso”. Queremos, enfim, estudar marketing e consumir muitos, muitos produtos light e diet — a dieta não seria a mesma, ditos em português. Pois é, calem-no! Aproveitem e calem Ariano Suassuna, também. E Rui Barbosa. Hein? Já morreu? Tá, então pula este.

É isto, amigos leitores anti-xenófobos (como eu, volto a frisar!). Hã? Meu maior desejo para o próximo ano? Ah, ia esquecendo. Como não vai dar pra trabalhar numa das grandes instituições financeiras privadas que atuam no país, preferencialmente de capital maciçamente estrangeiro — porque, definitivamente, este governo que está aí não vai privatizar a velha e honrada Caixa Econômica Federal —, quem sabe não aceitariam mudar seu nome para Federal Savings Bank – FSB. Já pensou? Assim, em itálico, para não deixar dúvida da origem do nome. Gosh, seria a glória! Psiu! Shut up! Cuidado pra concorrência não copiar.
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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O doce mistério do natal

Crônica
Por que o Natal deixa a gente meio mole? Molão, molengão, sacomé? Emotivo, generoso... Engraçado. Não, não deixa engraçado. Embora, vem de graça; então, pode ser. Mas quis dizer: engraçado como esse estado de espírito se manifesta no meio de tanto consumo. E por paradoxal que pareça, esse consumo também é, muitas vezes (acho), um reflexo desse mesmo estado. Há um prazer maior em presentear. Doação. Não é só a obediência a um costume comercial. Não é só Papai Noel. Não! Há algo maior. Maior do que nossa cultura capitalista tropical, do que as propagandas que nos empurram para comprar. Do que o bom velhinho. Até a crônica sai diferente. Molona, molengona. Aquela lerdeza que dá quando a gente tá em paz. Uma dormência... E fazer o bem? Vontade que dá! Procurar a paz, a boa convivência. Diferente de outras épocas do ano. O Natal é legal.

E agradecer? Caramba, é um tal de agradecer por tudo e a todos! ‘Brigado por isto, ‘brigado por aquilo. Abraço pra lá e pra cá. Beijo. Haja beijo. E este estado de graça acontece mesmo que não se reflita sobre o significado cristão da data. Quer dizer: parece até que o espírito divino resolve passar mais tempo entre nós, independente da nossa vontade ou consciência, e nos faz senti-lo mais forte, sem nos darmos conta de que é ele, ou por causa dele. E fica deixando a gente assim... melhor. É, numa palavra: melhor. Até quereria saber o porquê, se alguém viesse me dizer. Mas na verdade não me importa saber. Só sentir me basta. E sentindo, agir conforme.

E já que é assim, alguns agradecimentos a Deus. Por eu ter pais vivos e com saúde, e ser absolutamente amado por eles todos os dias. Por meus três filhos: a Mariana, o Andrezinho e a Nandinha — citados por ordem de nascimento, para não ficarem com ciúmes —, minha continuação, meus amores. Minha família toda, ‘brigado. ‘Brigado pelo amor da Dolly, minha namorada linda e querida. E por ela passar no concurso. Agradecimento antecipado, afinal, ela vai. ‘Brigado pelos meus amigos. Os de infância, nas pessoas do Ranulfo — amor fraterno sem medida, e recíproco, — e do Zé Carlos — o cabeça-dura mais fiel que conheci —; os ganhos na juventude, na pessoa do Marcelo (Malta) — um irmão —; os nascidos nas lutas diárias da advocacia, como o Cornelio Alves — cabra bom da pega! —, além dos mais recentes, como o (André) Canuto, já queridos. ‘Brigado, também, pelos Drs. Marcos Madeiro e Wenceslau Brás — médicos competentes até umas horas, que me salvaram a vida (verdade!) —, por meu advogado e amigo demais da conta (honra ter a sua amizade), José Costa, e pelo Nélson Feijó, que terá sempre meu carinho e minha gratidão.

Ah! agradecer à Santa Catarina! ‘Brigado, santa querida e, certamente, alvirrubra, por não ter deixado o meu CRB cair à Série C do Brasileirão (lá no seu Estado), em 2005 e 2006, e também pela evolução do Galo, agora em 2007 (você, junto com minha mãe querida do céu, têm participação nisto, certamente!).

Pra terminar, claro: Feliz Natal pra todos!
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Tb publicado no Blog do AnDRé fALcÃO e no sítio Futebolalagoano.com

domingo, 2 de dezembro de 2007

Então...

Crônica
Já repararam na febre do então? Perceberam que o paulista adora usar o então pra tudo? Pra absolutamente tudo? Não é possível que vocês não tenham. É notório! Todas as respostas, todas, iniciam-se pelo então.

Aliás, fico impressionado como essas coisas de repente aparecem, e pegam! É assim com as gírias, por exemplo. Tá ligado?, brother, véio... Não, não estou — de jeito nenhum! — pretendendo inserir o então no mesmo grupo. Podem ficar tranqüilos os que adotaram o então como um mantra, uma bengala, ou o que quer que os tenha feito aprisionarem-no, irremediavelmente, como o fizeram. Ou o então é que os aprisionou? Não importa. Certo é que o então é de outra estirpe.

Talvez se o então fosse nascido entre os usuários do tá ligado?, etecétera, essa crônica teria outro texto. Mas o fato, e que distingue o então dessas outras expressões, é quem o adota. Com efeito, o público é variadíssimo! Mas, nessa variedade, há os intelectuais — sim, até eles! —, os milionários, as celebridades... Enfim, o então, bem se vê, não é pra qualquer um, embora haja os intrusos — sempre os há, né? — que querem usar o que (o então) não lhes cabe. Mas não conseguem — despreocupem-se os titulares do então — tirar o seu glamour, de sorte que o então não soa como o verdadeiro então quando é por esses — pobres e mortais — declamados. Vejam:

— O que o senhor poderia nos esclarecer sobre essa mais nova e fantástica descoberta da medicina? — indaga o curioso e espantado jornalista à respeitada autoridade médica no assunto.
— Então..., começaria lhes dizendo que blá, blá, blá...
— Mas assim devemos concluir que a cura para essa doença é questão de dias?
— Então..., não é bem assim, afinal restam algumas últimas pesquisas a serem concluídas...

Já na balada, dois marombados (do pescoço pra baixo):
— E aí, véio? Tá bombando de gata, hein?
— Então..., pode crer... Irado!

Perceberam que o então não é pra qualquer um? O então tem um quê de sabedoria! Apesar dos usurpadores de plantão cometerem o sacrilégio de usá-lo, o então neles soa diferente. Não estou querendo defender que os desafortunados, os ignorantes, os surfistas, os donos das ruas — em suas caminhonetas importadas andando na contramão, na noite —, os de “notório saber” (he-he!) não possam usar o então. Afinal, desde que se façam entender, cada um usa o então como e quando quiser. O que quero ressalvar é que não importa quem o use, o então mantém o seu garbo, a sua linhagem superior.

— Entendeu, leitor?
— Então..., entendi.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Sempre é tempo de aprender

Conto
Fazia algum tempo que o conhecera num desses sítios de relacionamento existentes na internet. Quase 3 meses. Contava cerca de cinqüenta anos, enquanto ele passara dos sessenta. Ambos bem apessoados, embora o homem apresentasse um já avantajado abdômen. Mas tinha seu charme. Marcaram para encontrar-se em Maceió, cidade natal de Heloísa, onde ela reside e trabalha. É psicóloga. Antes, estivera no Rio de Janeiro, onde fora encontrar João pela primeira vez, lá conhecendo seus familiares. Começaram a namorar; agora, também na chamada vida real.

Assim, dirigira-se ao aeroporto. Chovia bastante. Torcia para que o vôo não atrasasse. Chegara com pouco mais de meia-hora de antecedência. O movimento não era grande no único portão de desembarque. Devia contar umas trinta pessoas, mais ou menos, entre adultos e algumas poucas crianças. Após constatar, no balcão da companhia aérea, que o vôo sofreria um atraso de cerca de uma hora, recostou-se próxima ao portão e, enquanto aguardava, ficou a observar o movimento dos que, como ela, esperavam. Sua atenção foi despertada pela presença de oito mulheres, sozinhas, quando muito acompanhadas de uma amiga ou parente. Uma despertou-lhe a atenção mais do que as outras. Era muito bonita, vestida elegantemente. A mais reservada de todas. Tinha um ar altivo, sem ser arrogante. Uma expressão séria, sem parecer antipática. Fazia acompanhar-se de um homem que, pelos trajes, parecia ser seu motorista. Todas, sem exceção, seguravam a euforia ou a ansiedade como podiam, mas não havia como disfarçar. Apresentavam expressões e atitudes tão semelhantes que não seria absurdo imaginar-se, até, estariam esperando a mesma pessoa.

Curiosa e comunicativa, Heloísa não tardou a puxar assunto com uma delas, Simone. Para sua surpresa, constatou que também estava a esperar alguém que conhecera na internet. Riram bastante da coincidência. Percebeu que a nova colega sentiu-se mais tranqüila após a revelação, afinal não era a única, nem estava só. Não passaram dez minutos e outra daquelas que ali estavam, tendo percebido o movimento de Heloísa e Simone e, principalmente, ouvido parte da conversa que travaram, apresentou-se a ambas, quase sôfrega, exclamando:

— Eu também estou a esperar um namorado que conheci na internet! — a gargalhada foi geral.

Não é fácil de acreditar, mas daí a pouco estavam as sete a conversar sobre a impressionante coincidência que as unia. Todas enamoradas por alguém que conheceram na internet. Todas aguardando seu respectivo namorado, ou quase-namorado, no aeroporto. E para não dizer que tudo era igual entre elas, duas — uma era Heloísa — já havia encontrado o seu par no mundo real.

Certamente, só este fato já daria, em si mesmo, uma boa história. Afinal, não é sempre que acontece, muito menos numa cidade ainda de tamanho médio, de sete mulheres se conhecerem a um só tempo, num aeroporto, esperando o mesmo vôo, e neste a chegada de seus namorados respectivos. O tempo parecia ter parado para aquelas pessoas. Ou conspirado, de algum modo, para que isto se desse. E era sobre o inusitado desse encontro que conversavam no início. Depois, o assunto passou a ser como cada uma conheceu o “seu”, em que sítio da internet, como ele é, se já viu foto, qual a idade, se tem filhos, o que faz e, claro, há quanto tempo “teclavam”.

Apenas uma — a que mais lhe despertara a atenção — manteve-se mais distante, com um olhar fixo e levemente aflito na direção do portão de desembarque, somente de vez em quando desviando-o para observar o burburinho criado pelas sete novas amigas.

Heloísa, apesar do divertimento que aquele inusitado encontro lhe causara, e do quão agradável estava sendo — bem-vinda distração para ajudar a passar o tempo e dominar a ansiedade pela chegada da aeronave —, não esquecera aquela estranha mulher. Coisa de psicóloga? Sabe-se lá.

— Quem é, ali? — perguntou, chamando reservadamente Simone a um canto.

— Logo que cheguei a vi e me pareceu tão apreensiva... Muito mais do que nós, até. Tem um certo ar de tristeza... — completou.

— Olha, soube há pouco, por uma das meninas, que ela também está esperando alguém nas mesmas circunstâncias que nós — respondeu Simone, para em seguida completar:

— Inclusive ela aparenta estar muito mais nervosa do que a gente. Talvez tenha brigado com o sujeito e esteja apreensiva para fazer as pazes. Ou nunca o tenha visto antes e está assustada. Sei lá...

— Também acho. Parece tensa, apreensiva demais. E me passa uma sensação estranha cada vez que a olho. Além disso, mantém-se sempre afastada. Humm... Bom, deixa pra lá. Vamos voltar às meninas — disse, aparentemente resolvida a esquecer o fato.

Para Heloísa, Simone e suas novas amigas não faltou mais assunto para passar o tempo. Cada uma que quisesse saber mais detalhes da relação da outra, como é natural quando juntas sete mulheres apaixonadas, ou em vias de, que acabaram de se conhecer num aeroporto, esperando seus homens que, igualmente, conheceram virtualmente.

Finalmente, é chegada a hora. O tempo já lhes fora francamente favorável em conspirar para que ficassem juntas, solidarizando-se umas com as outras, enquanto aguardavam seus talvez futuros maridos. Mas o tempo não espera. E, assim, finalmente a bela voz feminina da funcionária do aeroporto anuncia a chegada do tão esperado vôo. Pouco mais de uma hora de atraso. Ainda chove muito.

Heloísa sente um frio na espinha. Surpreende-se consigo mesma, por tanta expectativa em ver João de novo. Percebe que a euforia descontraída das novas amigas, embora misturada a razoável ansiedade, deu também lugar a expressões de angústia contida e, em algumas, indisfarçável medo. Olha, automaticamente, para a mulher solitária. Quase de soslaio. Ela estava imóvel. Não conseguiu sequer identificar sua respiração, por algum movimento do peito ou abdômen. Por um momento achou que fosse passar mal. Mas logo voltou suas atenções para João que, a essa altura, casaco de couro preto pendurado displicentemente em um dos braços, a outra mão segurando uma bolsa aparentemente acondicionando um laptop, acabara de ingressar no grande salão de desembarque.

Um a um, os passageiros dirigem-se à esteira rolante em busca de suas bagagens. Surgem os primeiros cumprimentos. De longe. Acenos. Alguns efusivos, outros tímidos, a maioria envergonhados tentando aparentar naturalidade. Heloísa percebe o coração bater mais forte. Olha João de cima a baixo, tentando enxergar alguma possível mudança física, curiosa como são as mulheres. Tenta controlar a euforia. Não enxerga mais ninguém ao redor. Está apaixonada. Vê-se adolescente. Estranho as pessoas se sentirem adolescentes quando estão apaixonadas, pensa. É como se esse sentimento fosse um privilégio exclusivo daqueles. Bah! Afastou o pensamento preconceituoso.

Apanhada sua pequena mala, João vem puxando-a pela alça, fazendo-a deslizar sobre as rodas nela acopladas, na direção da porta que o separa de Heloísa, enquanto o sorriso largo deixa escancarado o prazer que sente por estar ali, por amá-la, por em breve poder tê-la nos braços. Os segundos em que o fiscal do aeroporto compara o número do bilhete da bagagem com aquele constante no ticket em posse de João parecem uma eternidade. Finalmente, alcança Heloísa. Abraçam-se e beijam-se. Com alguma timidez, mas carinhosamente.

— Heloísa, este é Francisco. Francisco, esta é minha nova amiga Heloísa. E este é o namorado dela, João. Como nós, e como todas aqui, veja ao redor, conheceram-se em sítios de relacionamento na internet — disse Simone, enquanto se divertia com a expressão de surpresa de seu par.

Sucederam-se apresentações, risos, abraços, apertos de mão. Todos alegres, alguns desconfiados, examinando-se mútua mas discretamente. Não tardou, iniciaram um ensaio de combinação para encontrarem-se num barzinho, à noite, de modo a comemorar essa incrível coincidência.

De repente, Heloísa lembra-se da mulher que por algum tempo tanto lhe despertou a atenção. Olha ao redor, mas não a encontra. Não há mais ninguém no salão de desembarque. A esteira rolante está parada. Será que já foi?, pensou. Sabe-se lá porque, pede licença aos demais e dirige-se ao balcão da companhia aérea, puxando João pela mão. Ela está lá. Gesticula muito, visivelmente aflita. O homem que parece ser seu motorista mantém-se a uma prudente distância. Pede, então, a João que aguarde um pouco junto aos novos amigos — não sem explicar-lhe, ainda que rapidamente, que precisa falar com aquela senhora. Beija-o, com carinho, e se vai. Lá chegando, apresenta-se e diz que soube que ela também estaria aguardando alguém que conhecera na internet. Pergunta-lhe se está havendo algum problema e se pode ajudá-la em alguma coisa. Marina — este o seu nome —, visivelmente aflita e com lágrimas nos olhos, confirma a informação, mas explica que está preocupada porque aquele a quem aguardava não desembarcou. A funcionária da companhia fora verificar se ele estava realmente confirmado no vôo que acabara de chegar.

— Eu já estava com um estranho pressentimento de que algo não iria correr bem — disse Marina.

— Percebi. Desde que a vi você estava, mesmo, com um ar de preocupação, diferentemente de nós, que embora ansiosas, estávamos alegres e excitadas.

— E não sei explicar o porquê disto ter ... — ia dizendo Marina, quando foi interrompida pela chegada da funcionária.

— Sinto muito, senhora, mas não há nenhum Carlos Alfredo de Santiago entre os passageiros que desembarcaram.

A palidez de Marina foi imediata. Sua expressão era um misto de tristeza, decepção e dor. As lágrimas, antes contidas, escorreram sobre seu rosto sem sofrerem resistência.

— A senhora tem certeza? Por favor, veja novamente. Deve estar havendo algum engano — balbuciou.

— Sinto muito. Verificamos todos os nossos vôos vindos de Belo Horizonte nesta tarde, inclusive este, que fez conexão no Rio de Janeiro. Em nenhum constava o nome da pessoa que a senhora procura.

Heloísa agradeceu à funcionária, e temendo viesse Marina a passar mal, chamou-a para sentar-se e ofereceu-lhe um copo d’água, que correu para comprar, aproveitando o momento para dirigir-se a João e convidá-lo a acompanhá-la. João, porém, a tranqüilizou, dizendo que fosse amparar a amiga, enquanto iria acessar o seu e-mail através do laptop que trouxera, já que aguardava uma mensagem importante de trabalho.

Copo de água à mão, ofereceu-o, enquanto tentava acalmá-la.

— Não há de ser nada. Certamente houve um problema de última hora e o seu namorado deve ter pego um vôo de outra companhia. Ou não tenha podido vir, nem avisá-la a tempo, mas não tardará a fazê-lo.

— Não entendo. Estava eufórico. Dizia que era tudo o que mais queria. E eu seria capaz de jurar que dizia a verdade. Além do que, nunca havíamos nos encontrado antes.

— Mais uma razão para você não pensar em hipóteses pessimistas! Claro que aconteceu alguma coisa e não haverá de ser nada grave. Há quanto tempo vocês “teclavam”?

— Completou um ano em dezembro passado. Estava vindo porque me decidira a encontrá-lo, já que nos conhecemos, virtualmente, há exatos 14 meses e 20 dias, e amanhã é o meu aniversário.

— Pôxa! Vocês se conhecem há mais de um ano e nunca se encontraram?

— Pois é... Ele insistia, mas eu sempre negava. Sempre tive medo de que ele não fosse quem dizia ser. Depois tive medo de que não fosse o que demonstrava ser. Depois tive medo de que não fosse quem eu já achava que era. Sabe como são essas coisas de internet. O fato é que o medo sempre me paralisou. Mas depois de tanto tempo e de me certificar, de todas as formas, de que Carlos era quem eu pensava que fosse, acabei por ceder aos seus insistentes apelos e marcamos para nos encontrar. Mas, como você vê, ele não veio. E agora não consigo acreditar que tudo não tenha passado de uma ilusão.

— Realmente, foi tempo demais! Eu agüentava, não. Olha, no meu caso, em 30 dias nos encontramos. E eu é que fui ao Rio de Janeiro, onde João reside.

— Deus me livre! Não teria essa coragem! Para você ter uma idéia, no natal passado Carlos insistira como nunca para vir a Maceió. Além de ser natal, faríamos um ano juntos. Quero dizer, juntos na internet. Dizia não ter mais idade para esperar, que a felicidade não bate duas vezes à porta, que o tempo é implacável com quem o perde. Mas intransponível era eu com meus medos e rígidos princípios morais. Assim, resisti. Até que a proximidade de meu aniversário, além da insistência de Carlos, fizeram-me ceder.

— Bom, eu também tentei me certificar como pude, claro, sobre João. Conheci familiares seus pela câmera do computador, investiguei o endereço da firma onde trabalhava e por aí afora. Por exemplo, ele dizia que morava com uma irmã e que uma faxineira ia semanalmente ao apartamento. Sem ele saber, de surpresa eu pedia para vê-los e falar-lhes, ora com um, ora com outro. Liguei para o seu trabalho. Verifiquei os nomes das pessoas que atendiam. Enfim, procurei me cercar de alguns cuidados. Mas fui! Marcamos e fui!

— Nossa Senhora! Realmente, eu não teria tanta coragem. Um mês!

— Quando cheguei ao Rio, pedi que me levasse logo para o hotel, dizendo-me cansada. Marcamos para nos encontrar à noite, tempo suficiente para que, entre outras coisas, eu ligasse para o seu apartamento e falasse com sua irmã. Também para deixar precavidos meus familiares de que se eu não ligasse até uma certa hora da noite, eles me telefonassem. Tinham o meu telefone celular, o do hotel e o do próprio João. Não conseguindo contato, não relutassem. Chamassem a polícia. No fim, deu tudo certo. Agora é ele quem vem a Maceió e daqui a dois dias completamos 3 meses de namoro.

A chegada de João, Simone e seu namorado interrompe a conversa. Feitas as apresentações, não demorou cuidaram de se despedir. Ouviu um leve soluçar e sentiu um rápido tremor do corpo de Marina abraçado ao seu. Prometeu telefonar-lhe. Percebeu que a pouca cor que viu passar rápida e furtivamente por seu rosto, enquanto conversavam, fora-se tão rápido quanto veio.

Partiram. À noite, foram todos a um restaurante. Heloísa, suas sete novas amigas e seus respectivos namorados. Ela e Simone sentaram-se próximas uma da outra. Comentara, reservadamente, o que se sucedera com Marina, como a conhecera e o que ficara sabendo. O fato é que, por alguma estranha razão, Marina não lhe saía da cabeça. Tentou ligar algumas vezes para o seu telefone celular, ainda do restaurante, tal como prometera, mas o sinal recebido era de que o aparelho estaria desligado ou fora da área de alcance. Abortou a idéia de ligar para o número de sua casa, afinal já era perto da meia-noite. A solução seria aguardar o dia seguinte. Não demorou muito o jantar. A maioria estava cansada da viagem.

Já de volta, Heloísa e João puderam matar um pouco a saudade que sentiam. E nenhum dos dois podia, nem queria, esperar mais. Ali, durante aqueles momentos em que se amaram, esqueceu tudo. Simone, suas novas amigas, as coincidências impressionantes. Esqueceu, até, Marina. Sentia-se feliz. Agradecia ter vencido o medo e ido conhecê-lo. Lembrara-se do quanto fora difícil ter tido aquela atitude de desprendimento e coragem. Na verdade, nem sempre fora assim em sua vida. Assim, no fundo entendia Marina, a despeito de ter-se surpreendido com seu relato.

João não tardou a adormecer. Ela, ao contrário, sentia dificuldade, a despeito de que já perto de 2 horas da manhã e naturalmente deveria estar sonolenta. Lembra-se que a última vez em que olhara para o relógio de parede, em frente à sua cama, marcava 3:40 horas. Acordou por volta de 7 horas. João dormia a sono solto. Novamente tentou o celular. O mesmo sinal dado durante a noite. Levantou-se. Resistindo à tentação de telefonar, de imediato, para sua casa, tentou distrair-se ligando a televisão, enquanto tomava, mecanicamente, o café matinal.

Nem bem os ponteiros marcaram 8 horas, ligou. Atendeu uma empregada. Após se apresentar como uma amiga e perguntar por Marina, a resposta:

— Ela não passou bem ontem à noite e seus familiares a levaram ao hospital.

— Como assim? O que ela teve? A que horas foi isto? Ela está bem?

— Olha, não sei dizer muita coisa, não senhora. A única coisa que sei é que d. Marina já chegou do aeroporto muito pálida, suando frio e com os olhos inchados, como se tivesse chorado muito. Depois, fez alguns telefonemas e, de repente, desmaiou. Corri a chamar sua irmã, que mora no apartamento de cima e que felizmente se encontrava em casa. Ela levou a patroa ao hospital, com seu marido. Não sei mais de nada. Ninguém ligou até esta hora. Também estou preocupada.

Após saber para qual hospital possivelmente se dirigiram — a empregada ouviu comentarem o nome, minutos antes de saírem —, trocou rapidamente de roupa e foi encontrá-la. Antes, deixou um bilhete para João, explicando sucintamente o ocorrido, pedindo que a desculpasse pela saída atabalhoada e a aguardasse. Havia café pronto. Terminou com um “eu te amo”.

Meu Deus, pensava, o que teria acontecido? Qual o mistério, enfim, daquele homem não ter vindo? Ela parecia tão apaixonada. Até talvez mais do que a maioria das que lá estavam. Assim pensava, enquanto tentava estacionar o carro no hospital. Mas o que importava isto, agora? Sua ansiedade a impulsionava a deixá-lo na rua mesmo, inclusive à revelia da chuva que teimava em não passar. A Pegou-se pensando na razão para se impressionara tanto com Marina e sua história. É como se algo lhe dissesse que teria que conhecer o desfecho daquilo. Que não seria um desenlace comum. Que haveria uma lição a aprender. Ou a compartilhar.

— Por favor, a Sra. Marina de Alcântara. Soube que internou-se, ontem à noite, na emergência.

— Um momento. Sim. Apartamento 312.

— Como ela está. A senhora saberia dizer?

— Bom, ela chegou passando mal e recebeu os primeiros socorros. Agora está sob observação. Mais, não sei dizer.

— Obrigada — disse Heloísa, já subindo os primeiros degraus em direção ao 3° andar.

Quarto 300, 302, ... achei! 312. Ao lado, a uma distância respeitosa, o mesmo homem com roupa de motorista. Era ali mesmo, claro. Bateu à porta.

Uma mulher, aparentando não mais de 40 anos viera atender.

— Pois não?

— Por favor, é nesse apartamento que está internada a Marina? Sou amiga dela.

— Sim, é aqui mesmo. Queira fazer o favor de entrar. Ela está dormindo, mas daqui a pouco a enfermeira virá acordá-la para dar-lhe um remédio.

— Obrigada.

Bastou entrar no quarto, porém, Marina abriu os olhos. Ao vê-la, sorriu um sorriso triste, enquanto algumas lágrimas escorreram por sua face.

— Olá, amiga... O que houve, meu Deus? Liguei tanto pra você ontem à noite... Seu celular estava desligado ou fora de área, segundo a companhia telefônica. Pensei em telefonar pra sua casa, mas pelo adiantado da hora, desisti. Hoje, finalmente, consegui falar com sua empregada, que me dissera que você não se sentiu bem após um telefonema e viera cá ao hospital. Vim o mais rápido que pude.

— Obrigado pela atenção, Heloísa. Você é muito bondosa e atenciosa. Estou um pouco melhor. Mas adoraria estar, ainda, com aquela ansiedade, aquela angústia e aqueles pensamentos pessimistas. Foi o choque que tomei ontem à noite, após conseguir falar com Belo Horizonte, depois de horas de tentativa. A tristeza toma meu corpo e minha alma por completo. Descobri o que é desolação. E arrependimento. Mas vou encontrar forças para te contar, até porque é uma forma de expiação da culpa que sinto. Sente-se, por favor. Como está João?

— Está bem. Deixei-o dormindo e vim direto pra cá. Sou todo ouvidos.

— Muito bem — disse —, como iniciei a contar ontem, conheci Carlos há pouco mais de um ano. Foi amor à primeira vista, embora não nos vimos logo, claro. Passávamos horas a conversar pela internet, de início somente “teclando”. Após mais ou menos um mês, Carlos convenceu-me a comprar uma daquelas câmeras que são acopladas ao computador e permitem que você veja com quem está conversando e seja vista ao mesmo tempo, além de um microfone. Vê-lo e poder ouvir sua voz várias vezes — por telefone procurávamos não demorar muito, pelo custo da ligação interurbana — somente aumentou a imensa paixão que já sentia, e ele por mim, tenho certeza. Na verdade, confesso que certeza, mesmo, dos seus sentimentos e intenções só vim ter há pouco tempo, já perto de concordar que viesse encontrar-me. Quanta desconfiança, meu Deus... Quanta perda de tempo... No fundo já acreditava desde o início, mas relutava, certa de que, assim agindo, estaria sendo esperta, madura e acertadamente cautelosa. Que nada! Estava era deixando de viver. A vida me apresentara o amor, a paixão e o prazer desses sentimentos — que pra mim devem ser um só — e eu não aproveitara como deveria. Por medo. Um medo tolo e injustificado. Neurótico, até. E o tempo não espera, cara Heloísa. Decerto porque você bem sabe disto, cuidou de aproveitar o amor melhor do que eu.

— Não se cobre tanto. Você fez o que achou melhor à época, o que conseguiu, o que pensava ser o correto. Não se culpe — tentou amenizar sua dor.

— Como dizia, ficávamos horas a namorar pela internet. Carlos passou a pedir para que nos encontrássemos, dizia querer ver-me, abraçar-me, sentir o frescor da minha pele, meu cheiro, passar a mão em meus cabelos, apertar-me, beijar-me longamente a boca, amar-me como se amam duas pessoas enamoradas. Medrosa, resisti. Dizia-lhe que não nos encontraríamos antes de um ano, tempo que julgava suficiente para constatar se o que dizia sentir por mim e o que dizia de si seria verdade. Assim se passaram os meses, até que se aproximou o natal do ano passado. A única filha dele, do primeiro casamento, viria ter com ele até o ano-novo. Desejava muito que a conhecesse e ela a mim. Pediu, implorou, insistiu. Argumentava que a vida não pára, que o tempo passa e não perdoa os que desprezam as oportunidades. Alertava que Deus estava sendo muito bom conosco, apresentando-nos e ao amor. Lembrava que não éramos mais tão jovens. Repetia sempre: o tempo passa Marina, e não volta atrás. Medrosa, continuei resistindo. Quase brigamos seriamente dessa vez. Afinal, iria completar um ano pouco depois do ano-novo. Antes, somente uns raros desentendimentos, que qualquer casal tem. Senti que à irresignação de Carlos seguiu-se uma tristeza muito grande. Ele realmente desejava encontrar-me mais do que qualquer outra coisa na vida. Mas, por força do amor que sentia, aceitou. Respirei aliviada. Eu o amava. Nunca sentira algo nem levemente parecido com aquilo.

— E a filha dele? Conversou com ela sobre isto?

— Sim. Posso dizer que simpatizamos muito uma com a outra. Expliquei-lhe os meus motivos. Ela tentava entender. Parecia que via além dos olhos de Carlos. Ou sentia mais fundo do que o seu coração de homem apaixonado conseguia. Percebia que o medo era mais forte que eu. E embora racionalmente não concordasse comigo, essa circunstância, por alguma razão, a fez gostar ainda mais de mim. Uma vez me disse que a seriedade com que eu tratava o amor que sentia por seu pai a fez admirar-me muito além do que já o sentia pelo que conhecia de suas conversas com ele. Foi então, minha amiga, que aproximou-se o mês do meu aniversário e Carlos voltou a pedir para que não abreviássemos novamente o nosso encontro. O interessante é que, agora, eu mesma, antes mesmo dele comentar, já assim o desejava. Estava certa de que queria vê-lo, convicta de que não havia mais o que temer. Eu o amava. Ele me amava. E seríamos felizes para sempre, como num conto de fadas. Não deixei sequer que completasse o pedido. Disse-lhe que fizesse as malas, comprasse a passagem e viesse ao meu encontro. A partir daí vivemos uma semana de expectativa e ansiedade imensas. Fizemos mil planos de como seriam os dias na minha cidade. Ele conseguira alguns dias de folga. A passagem fora comprada. Sairia de Belo Horizonte, pela manhã. Eu iria pegá-lo no aeroporto àquela hora em que nos vimos e nos conhecemos. A única nota dissonante é que sua filha não poderia vir, mas, por outro lado, teríamos esses dias só para nós. Despedimo-nos à véspera da viagem, à noite. Foi a última vez que o vi, pela minha câmera querida. Parecia mais bonito, tanta a felicidade que seu rosto, sua voz, seu olhar expressavam. Desligamos e fomos dormir. Quero dizer, tentar, porque na verdade mal preguei o olho aquela noite. Levantei logo cedo, fui resolver os últimos detalhes de minha vida profissional, voltei, preparei-me para encontrá-lo e fui ao aeroporto. Mas havia algo que me deixava angustiada, uma sensação estranha e desconfortável naquela manhã. É que não conseguira falar com Carlos antes da viagem. Seu celular estava desligado quando lhe telefonei cerca de duas horas antes do vôo. Em sua casa, ninguém atendia. Ele, naturalmente, não viajaria sem me ter telefonado. Isto me deixou apreensiva. O resto, no aeroporto, você já sabe.

Heloísa não conseguia dizer uma palavra. Só ouvia, atentamente.

— Depois que voltei do aeroporto, passei a ligar repetidas vezes para o celular e para a casa dele. Passava mil coisas pela minha cabeça, até mesmo que ele desistira de mim. Finalmente, depois de algumas horas de tentativas infrutíferas, sua irmã atendeu do outro lado da linha. Parecia estar sob o efeito de alguma droga, já que sua voz estava mais lenta e embargada do que o habitual.

— Clarice, onde está o Carlos? O que houve? Desde ontem à noite que não falo com ele. Não embarcou. O celular está desligado. Pelo amor de Deus!, diga que está tudo bem.

— Não está, Marina. Na verdade, não está.

— Mas então diga-me, por favor! O que aconteceu? Onde está Carlos?

— Há alguém aí com você?

— Só a minha empregada. Mas pode falar — disse Marina.

Clarice não teve condições físicas ou psicológicas de esconder-lhe o que aconteceu. Não conseguiu resistir. Por outra, achou que Marina não podia esperar mais. Contou.

— Carlos acordou feliz naquela manhã. Feliz como há muito tempo não via meu irmão. Pulou da cama logo cedo, foi à sala, encontrou-me já acordada, abraçou-me longamente, brincou comigo, disse ser o homem mais feliz do mundo e avisou-me que ia tomar banho e aprontar-se porque a última coisa que faria seria perder o vôo para Maceió, o vôo que o levaria à sua Marina. Dizia isto quase gritando. Passados alguns minutos, ouvi o barulho do chuveiro. Carlos cantava. Não me lembro o dia em que o ouvi cantando enquanto tomava banho. Fiquei feliz por ele. Parecia um menino, e já era um respeitável senhor de quase 60 anos. Realmente, o amor não tinha idade. Sempre haveria tempo para amar. Fui verificar a roupa de Carlos e sua mala. Ver se não estaria esquecendo alguma coisa. Percebi quando o chuveiro foi fechado. Depois de algum tempo, o barulho de água escorrendo, agora a que saía da torneira, aberta, da pia.

— Carlos, está levando a máquina de filmar e o carregador de celular?

— Sim, Clarice! Tá tudo aí.

Silêncio. Somente interrompido pelo barulho da água escorrendo pelo ralo. Ora fechava a torneira, ora a abria. Imaginou: está “fazendo a barba”. Acho que nunca a fez com tanto esmero como agora, pensou Clarice, sorrindo para si. De repente, um baque surdo.

— Carlos! Carlos! O que foi isso? Está tudo bem?

Nenhuma resposta.

— Carlos! O que aconteceu? Que barulho foi esse? Responda, por favor!

Só o silêncio e o barulho da água denunciando que a torneira continuava aberta. Apavorou-se. Batia à porta, começando a desesperar-se e gritando seu nome. Carlos não respondia. Só conseguia ouvir a água escorrendo, uniforme. Tentou girar a maçaneta da porta. Constatou que não estava fechada à chave. Abriu. Carlos estava estirado no chão do banheiro, imóvel. Parecia desmaiado. Conseguiu constatar que respirava, mas era quase imperceptível. Correu a pedir socorro na vizinhança. Chamou a ambulância, que por sorte ficava há apenas um quarteirão dali. Em poucos minutos estavam a caminho do hospital. Clarice seguiu em seu próprio carro.

Chegando ao hospital, Carlos foi encaminhado direto à UTI. Permanecia desacordado. Sucederam-se alguns intermináveis minutos. Como o tempo demora a passar quando se deseja o contrário, pensou Clarice. Vem o médico.

— Algum parente do Sr. Carlos Santiago?

— Sim, doutor. Sou irmã dele.

— Lamento, senhora...

— O que houve? Pelo amor de Deus! Diga-me que meu irmão está bem! — interrompeu.

— Sinto muito... Ele não resistiu ao infarto. Faleceu minutos após chegar aqui. Adotamos todos os procedimentos com vistas a reanimá-lo, mas não adiantou.... Até houve um momento em que as técnicas empregadas surtiram efeito, mas apenas por alguns poucos segundos, infelizmente. O estranho, porém, e ao mesmo tempo surpreendente, perdoe-me dizê-lo agora, é que naquele momento em que conseguimos reanimá-lo, ele falou, fraca, mas claramente: “O tempo passa. O tempo não espera. O tempo é implacável.” E morreu.

Heloísa estava ansiosa para encontrar João. Via-se atordoada com tudo o que ouvira e presenciara nas últimas horas. O aeroporto, as novas amigas, a surpreendente coincidência que as uniu. Marina. Sua história. A mais linda e triste história de amor que ouvira e, em parte, até testemunhara. Desejava, como nunca, viver a felicidade que inesperada e paradoxalmente invadia-lhe o corpo e a alma. Sentiu seu coração bater mais forte. Sabia que sua vida nunca mais seria a mesma após Marina e Carlos. Desligou o ar-condicionado do carro. Havia parado de chover. Abriu os vidros. Queria sentir a brisa em seu rosto. O sol começava a encher de cor aquele final de manhã. Pegou a avenida da praia. Olhou para as pessoas, o mar, os coqueiros. Agradeceu a Deus por sua vida. Agradeceu pelo tempo que desfrutara. Sentia uma incontrolável vontade e disposição de viver. Viver mais e intensamente. “O tempo passa. O tempo não espera. O tempo é implacável...”, pensou.

Quase dois meses se passaram. Nunca mais tivera contato com Marina. Soube que ela teve alta no dia seguinte e viajara em seguida, para ver parentes no sul do país. Ligou para o seu celular. Uma, duas vezes. Aparentemente desligado. Para sua casa. Ninguém atendia. Desistiu. Desejou-lhe sorte, em pensamento. As outras amigas, inclusive Simone, vez por outra as encontrava pela internet, em alguns momentos em que estava “teclando” com João. E só.

Chegou muito cedo no consultório àquela manhã. Sentia-se alegre e com uma energia imensa. Uma nova cliente marcara, com sua secretária, excepcionalmente para aquele horário. Concordou em atender porque viera indicada por uma grande amiga de sua mãe. Teria sofrido um trauma intenso. Mais, não soube. Duas leves batidas na bela porta de madeira maciça, onde presa a placa anunciando “Heloísa de Souza Marques – Psicóloga”, interrompe seus pensamentos. Abre-a. Quase caem, ambas, para trás. É Marina.

É verdade, filosofou Heloísa, para si... O tempo passa. Não espera. É até implacável. Mas sempre há tempo para ao menos se aprender com o tempo que passou. Abraçam-se.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Assédio

Conto
Em saia justa. Melhor: calça. Mais apropriado. Me vi assim. Meados dos anos 90. Um pouco mais cedo, o prelúdio de minha advocacia na empresa em que trabalho até hoje. Para ficar na remissão às peças do vestuário, diria de mim, quando tudo começou, como ainda de calças. Senão curtas, no meio das canelas. O responsável pelo ajuste desmesurado daquela peça de roupa ao meu corpo era, então, alta autoridade em município do interior do nordeste. Gerente de banco oficial, em pleno século XXI, ainda é uma “autoridade” numa cidade pequena do interior do nordeste brasileiro, o que dizer de um Juiz de Direito. Era a profissão do sujeito. A fama lhe era desfavorável. Corrida à boca miúda. O que eu sabia, por ouvir dizer, é que não era muito afeito às práticas ombreadas com a honestidade.

Conheci o naquelas plagas. Precisava, então, impulsionar o andamento de um processo que por lá tramitava, mas que decerto estava esquecido, como tantos outros assim permanecem, dormindo nas gavetas empoeiradas de cartórios por este país. Certamente, não fosse tomada a iniciativa de pedir-se ao magistrado para dar prosseguimento ao feito, decerto do sono os autos não acordariam. Assim, lá fui, ansioso para provar ao meu chefe, aos colegas mais velhos e, principalmente, a mim mesmo, que era capaz de consegui-lo, apesar da pouca experiência e da cara ainda imberbe. Mas estava inseguro. Tanto porque teria que pedir ao magistrado que realizasse o trabalho para o qual é pago pelo erário — inaceitável, mas comum —, como em face da já referida má-fama do dito cujo.

Cheguei à cidadezinha e logo me dirigi ao cartório. Estava puto da vida comigo, porque me percebi preocupado e receoso. Perdoe-me a expressão chula, complacente leitor, mas era assim que me sentia, muito desapontado mesmo. Havia um único serventuário na mal cuidada sala. Pedi-lhe os autos para exame, após identificar-me, orgulhoso, como advogado. O mandado expedido pelo juiz naquela Carta Precatória, destinado à citação do devedor da minha empresa, estava há meses com o Oficial de Justiça encarregado de cumpri-lo. Surpreendeu-me mais ainda, porém, o equívoco no rito processual adotado pelo magistrado, o que recomendava um rápido, digamos, colóquio com a referida autoridade, com vistas à correção do inusitado erro. O problema era fazê-lo sem lhe ferir as suscetibilidades. Os advogados chamam essa conversa de “embargo auricular”, ou “embargo de orelha”, figura evidentemente inexistente nos compêndios acadêmicos. Servia para deduzir algum pedido sem a necessidade de sua formalização em petição escrita. Pedi pra me anunciar ao juiz. Não mais que um minuto depois retorna o escrivão (era escrivão, o servidor). Abre a porta do gabinete do magistrado e me convida a entrar.

— Como vai, Excelência? — cumprimentei a fera, tentando aparentar naturalidade e experiência.

— Tudo bem, doutor! Em que posso servi-lo?

Beleza! Então o sujeito não era tão mau como imaginei...

— Excelência, na verdade não pretendo tomar muito do seu tempo. É simples o que vim solicitar.

— Percebo que o senhor ainda é muito jovem... Tenho um filho que está cursando Direito. Creio que se formará dentro de dois anos — disse-me o juiz, com uma simpatia que, entretanto, não me convencia.

— É verdade. Comecei a advogar há menos de um ano. Peço para me perdoar se a minha inexperiência propiciar algum transtorno maior.

— Não se preocupe, doutor. Todos nós já fomos inexperientes um dia, não é? — repetiu o velho chavão. Mas, pelo menos, grosseiro não foi.

Continuamos a conversar um pouco sobre amenidades. Resolvi era chegada a hora de abordar os fatos.

— Bem, excelência, sem querer tomar mais do seu tempo, vim aqui para verificar o que podemos fazer para agilizar o andamento deste processo. Verifiquei que Vossa Excelência já determinou a citação do devedor, restando apenas que seja cumprida pelo meirinho. Observei, também — disse, com cuidado e devagar, tentando diminuir a gravidade do equívoco —, que há um engano no rito procedimental imprimido à Carta Precatória, já que não se cuida de execução fiscal, mas execução hipotecária...

— Ah, é? Deixe ver. Tem razão. Vou determinar a retificação, bem como que o Oficial devolva o mandado aos autos, devidamente cumprido, em 48 horas. Está bom para o senhor?

Ufa! Inacreditável! Missão cumprida. Agora, de volta para Maceió. E não me saí mal, afinal.

Desde então, anos se passaram e raríssimas vezes o encontrei, ocasiões em que me limitava a cumprimentá-lo, não havendo jeito de passar desapercebido. Sua fama de desonesto já se alastrava por toda a região. Daí a principal razão, certamente, a me empurrar para longe da criatura. Ou simplesmente era intuição.

Um dia, almoçava, toca o telefone. Não sei porque, senti algo estranho. Juro! Um pressentimento ruim. Atendi. Era ele. Esfriei. Que diabos queria comigo? Nunca antes telefonou pra mim. Aliás, como descobriu o número do meu telefone? Explicou que queria contratar meus serviços advocatícios, só que deveria ser realizado em outra cidade. Gelei. Por que eu? Senti, intuitivamente, que deveria declinar do convite, escapar de suas mal-cheirosas garras. Mas como fazer isto sem parecer indelicado ou, pior, sem ter de lhe passar uma descompostura? Precisava ganhar tempo enquanto pensava numa saída.

— Sei... mas... do que se trata? — perguntei, investigando e, ao mesmo tempo, fingindo interesse.

— Prefiro acertar os detalhes pessoalmente. Podemos nos encontrar?

— Ca... ca... claro... Mas para quando seria o serviço? — balbuciei, rogando ao Senhor uma luz.

— Para a próxima sexta-feira. Um carro com motorista poderá levar o doutor e trazê-lo de volta.

Foi a deixa que eu precisava. Obrigado, Deus! Numa vomitada só, disse-lhe:

— Oh, Excelência, lamento! Infelizmente, nesse dia estarei em Salvador, pra receber um parente que retorna de viagem. Lamento, mas terei que declinar do convite.

— Humm... Tudo bem, então, doutor — disse-me, levemente desconfiado. Ou foi imaginação minha?

Alívio. Senti um desafogo imenso. E nem sabia do que se tratava. Mas desconfiei não seria algo muito, deixe-me ver... ortodoxo. É que de um lado, a fama, má; de outro, um pressentimento ruim. Seria este influência daquela? Sei lá. Via das dúvidas, fiquei com a sensação de que pulei uma fogueira.

O fato é que mais uma vez me admoestara. Mais uma vez, porém, felizmente, saí incólume. Incomodara-me, de qualquer sorte, ter-se sentido à vontade para me procurar. O assédio, porém, não cessaria aí.

Passaram-se alguns meses e eis que o encontrei novamente, agora num evento sócio-político, bastante informal e interativo, onde nos cumprimentamos rapidamente. Tudo estava bem, até que chegada a hora do primeiro intervalo, quando seria oferecido um lanche pela empresa organizadora.

— Doutor, como vai? Tenho um processo, contra uma empresa para a qual o senhor presta seus serviços advocatícios, que deve estar retornando do Tribunal e sobre o qual gostaria de lhe falar. Segundo a publicação oficial, o senhor seria o advogado responsável pelo acompanhamento do feito.

Engoli em seco. De novo, não!

— É...? Sobre o quê... o processo...? — escapa, rapaz, escapa!, pensei.

Esclareceu-me.

Novo alívio.

— Não sou eu, doutor. Esse processo é acompanhado por outro colega. É que a empresa dispõe de advogados diversos a defendê-la, conforme o assunto discutido em juízo. Apenas a procuração é uma só, com todos os nossos nomes. Lamento.

Mais uma vez a admoestação, pensei. Mais uma vez não sabia o que pretendia, mas intuitivamente desconfiava. Mais uma vez tive que buscar uma saída liminar — para ficar no jargão jurídico. E era verdade. Não era eu o advogado responsável pela condução daquele processo. Despedi-me. Precisava pôr um fim nisso! Conseguira evitar indispor-me com o dito cujo, ou mesmo demonstrar-lhe vigorosamente minha irresignação, caso se cuidasse de pleito indecoroso. Lograra até mesmo evitar ir às vias de fato, a depender do que me pedisse. Mas o cara não largava do meu pé! Praga!

Nesse ínterim, os organizadores pediram a alguns participantes para discorrerem sobre algum tema, previamente sorteado. A mim me coube falar sobre educação. Não queria. Porém, algo me compelira a aceitar a incumbência. Algo mais do que apenas gentileza com os solicitantes.

Pus-me a pensar em como abordaria o assunto. Mas não me saía da cabeça, também, a necessidade, premente, de resolver definitivamente aquele problema. Isolei-me. Buscava concentrar-me no meio àquele burburinho. Os dois fatos a me martelar a cabeça. Pensei, pensei... Idéia! Claro! A solução estaria no próprio discurso.Teria de ser singelo, como a natureza do evento reclamava, e evidentemente ligado ao tema, tal como me foi atribuído, mas também deveria ser objetivo quanto ao recado — que precisava indiretamente transmitir-lhe — de que seria uma péssima idéia propor-me algo desonesto.

É fato, reconheço, que sequer pude constatar se eram irregulares as pretensões que o fizeram assediar-me. Afinal, delas me desvencilhei até antes de serem deduzidas, por cautela ditada por minha intuição. Mas não me arrependia. Antes, ao contrário, agora sentia a necessidade de pôr um obstáculo definitivo a qualquer outra nova investida que viesse a dirigir contra mim. Nutria, para isto, a íntima expectativa de que o “aviso” fosse captado e que me deixasse em paz de uma vez por todas. Se ele, por si só, não se apercebera da minha honestidade, eu a mostraria, então.

Voltamos à sala de trabalhos. Avisam-me, meu discurso, por enquanto preparado apenas em minha mente, seria o último. Melhor. Assim, poderia aprimorá-lo, improvisado que seria, alinhavando as idéias principais em tópicos para não me perder. Em verdade, todavia, só pensava em como nele encaixar a parte direcionada ao meu algoz. Deveria ser simples e direta, mas de modo que só ele pudesse saber-se dela destinatário. Aquilo poderia significar o fim daquele tormento. Engraçado, pensei novamente, eu sequer sei o que queria, nas vezes em que me procurou, e já tanto me incomodara. Imagino-me se soubesse...

Chegou a minha vez. Pedi ajuda divina. E fui. Normalmente tenso em situações assim, dessa vez estava até eufórico para começar.

Iniciei desenvolvendo os tópicos que alinhavei, no intervalo e durante parte dos discursos que me antecederam, sobre a importância da educação para o desenvolvimento de uma sociedade, o quanto nosso País se ressentia de sua falta, e como é imprescindível à formação de verdadeiros cidadãos. Depois, parti para a defesa da tese de que o alcance desses objetivos imprescindiria do rompimento com paradigmas arcaicos incrustados na própria ordem vigente, o que somente se daria em outro ambiente: um ambiente de desordem criativa, de revolução. Uma revolução na educação! Portanto, grandes avanços, grandes mudanças, grandes progressos, talvez não se coadunassem — ao menos não em muitos casos — com a ordem já estabelecida. Ordem para o progresso? Ordem ao lado do progresso? Ordem condição para o progresso? Assim não me afigurava. Teríamos que mudar nossa bandeira. Ao menos em nossa alma.

Fechava o silogismo, então, asseverando que a ordem não permitia a criatividade, antes a engessava, donde com ela contraditória e obstáculo ao progresso. A desordem, assim, seria um ambiente a ele mais propício e, portanto, à disseminação de uma melhor educação. Em circunstâncias que tais, os avanços viriam. Os processos revolucionários são prenhes deles.

Preparava, porém, ao mesmo tempo e finalmente, o terreno para o fecho do discurso, seu clímax, que se traduziria, também, no próprio recado à malfadada autoridade.

— Penso, assim, amigos, que a educação neste país necessita de um movimento verdadeiramente revolucionário, de rompimento com os paradigmas postos pela ordem vigente e passivamente aceitos há décadas. Entretanto, o que me causa estupor e indignação é que a revolução que apregôo há de se dar, antes, para incutir, ou restabelecer, nas pessoas a assimilação de um valor que, entretanto, é básico, e cujo ensino, outrossim, não deveria ser mais necessário difundir. Antes já deveria estar enraizado em cada cidadão, nessa e em outras ordens que se lhe seguissem.

Tomei um gole d’água, respirei fundo e continuei.

— É verdade. E é uma lástima não esteja. A revolução na educação há de ser promovida, sim. Mas, primeiramente, para disseminar um valor esquecido entre nós. Pasmem! Refiro-me à honestidade! Sim! Infelizmente, haveremos de começar tudo de novo. Pelo bê-a-bá, mesmo! Ensinar que o bom é ser honesto. E não o contrário. Que é errado roubar, enganar, corromper, desprezar, humilhar, apropriar-se do que é dos outros ou do bem comum, e etc. Inclusive o etc.

Nova parada. Não parava de sentir a boca seca. Quis tomar outro gole, mas não me senti à vontade para fazê-lo, já que há pouco o fizera. Achei que chegara a hora. Ele já deveria estar vestindo a carapuça, estivesse eu sendo claro. Concluí.

— Aprendi, com meus pais — tantos de vocês devem tê-lo, também —, que o maior prazer que se pode desfrutar nessa vida é o de poder deitar a cabeça no travesseiro, à noite, e fazê-lo com a consciência tranqüila, sem peso extra. Dormir tranqüilo, dizia-me ele, era o maior bem da vida, porque significava que estávamos sendo bons, corretos, cumprindo os nossos deveres e respeitando nossos semelhantes. Pena constatar, contudo, que os desonestos, neste País, estão dormindo muito melhor do que nós. Muito obrigado.

Aplausos se seguiram. Mal os ouvia. Em mim mesmo, só a expectativa de que o meu “recado” houvesse alcançado a consciência do sujeito, ou, faltando-lhe ela, o que existisse em seu lugar. Vácuo o fosse. Mas que o houvesse recebido e entendido-se dele destinatário.

Deram-se por encerrados os trabalhos; liberados os comes e bebes. Como outros colegas, que efusivamente vieram regozijar-se com minhas palavras de há pouco, também ele veio me cumprimentar. Porém, notei o constrangimento em sua voz, em sua fronte, em seu olhar. Mal me fitava.

— Hummm... Olha só... Que discurso, doutor. Parabéns — disse, oferecendo-me a mão, com um sorriso amarelo a moldar, e escancarar, o nítido desconforto que sua face espelhava.

— Obrigado — respondi, disfarçando minha satisfação e o velado propósito de tudo aquilo. Retribuí o cumprimento.

Rapidamente se distanciou. A distância, agora, era querida por ambos. Houvera me cumprimentado, para tentar disfarçar o mal-estar e a carapuça que o sufocava. Eu, fingindo-me de morto, constatei que estava finalmente livre. Logo me vira rodeado de colegas novamente, leve e satisfeito por haver-me posto a salvo.

— Hummm... Que salgados gostosos! Que ar puro! Tem mais uma cervejinha, aí?